Sempre antenada e com ideias para discussões sociais bem pertinentes, nascida no Rio de Janeiro em 1948, a escritora, roteirista, produtora e autora Glória Perez, ganhadora de um “Emmy”, prêmio concedido a obras televisivas comparado ao “Oscar” do cinema, ela que, em suas obras anteriores, já abordou vários temas muito importantes como drogas, rapto, tráfico e escravidão humana e / ou de mulheres, entre outros.

Já consagrada com vários sucessos, vem agora trazendo à tona em sua nova novela “Travessia”, o tema “Fake News” que aflige a personagem principal da trama que é vítima de uma “Fake News”, ao ser noticiado nas redes que ela seria uma sequestradora de crianças, num ato inconsequente de outro personagem da trama que fez isso por brincadeira, sem nem a conhece-la e escolhendo ela por acaso.

E outro caso será de outra personagem que terá uma desilusão amorosa e com isso desenvolverá durante a trama um transtorno pouco conhecido e muito perigoso, mas que foi potencializado depois da pandemia, tornando-se necessário ser discutido dentro da nossa sociedade que é a “Síndrome de Munchausen”.

            Como já foi dito, a Síndrome de Munchausen é pouco discutida e conhecida, talvez com esse tema vindo à tona nacionalmente pela televisão aberta em horário nobre, o transtorno comece a ser visto de maneira mais preocupante pela sociedade e pelo poder público. Esta síndrome também é conhecida como transtorno factício, se tratando de um transtorno psicológico onde a pessoa simula sintomas comuns a doenças, e em muitas vezes, força o aparecimento de sintomas de alguma doença, para com isso chamar a atenção das pessoas que a cercam.

             Tal Síndrome, é uma patologia mental, um transtorno psicológico onde a pessoa tem uma necessidade doentia de simular que está doente e precisa de tratamento. Essas pessoas buscam sentir a compaixão alheia, para isso muitas vezes ingerem remédios, se auto mutilam, provocam sintomas físicos reais.

 Essas pessoas vivem de hospital em hospital buscando tratamento, já que a repetição é uma coisa frequente, logo ficam sabendo de práticas médicas e como conseguem manipular situações para que consigam ser submetidas a exames e tratamentos e até, em alguns casos cirúrgicos, são perspicazes, astutos, observadores, aprendem muito rapidamente o que lhe interessam.

Este distúrbio foi percebido pela primeira vez em 1951 pelo médico inglês Richard Asher (1912-1969), ao perceber o padrão de auto dano, onde indivíduos fabricam historias, sinais e sintomas de doenças que não existem para chamar atenção, ele batizou a doença com este nome por causa das histórias que lhe contavam em sua infância sobre o Barão de Munchausen (1720-1797) que ficou conhecido por suas histórias fantasiosas. 

            Olhando assim, pode parecer ser fácil identificar quem tem a síndrome, mas não é assim tão fácil, só durante um período onde o paciente não tem melhoras em seus sintomas, mesmo sendo bem assistido pela equipe médica (começa a ser possível se suspeitar de que a pessoa esteja com o transtorno). Em alguns, casos pode surgir fatores que são incoerentes entre as informações trazidas pela paciente e a falta de melhoria em seu quadro clínico. 

Os sinais mais comuns da Síndrome de Munchausen são:

  • A ida repetidamente a hospitais, clinicas, laboratórios, Unidade Básica de Saúde (UBS), (popularmente conhecido como postinho) e Unidade de Ponto Atendimento (UPA);
  • Histórico médico e pessoal com pouca ou nenhuma coerência que comprove, a doença que afirma ter;
  • Necessidade constante de realizar exames para diagnosticar doenças, que geralmente não existem;
  • Ausência de qualquer tipo de melhora dos sintomas que diz ter, mesmo com o tratamento adequado;
  • Produzir ou simular intencionalmente os sinais e sintomas de doenças;
  • Existindo ou não motivos externos para esse tipo de comportamento, é algo comum;
  • Causar traumas ou lesões que sugiram sintomas, tais como: ingerir remédios ou outras substâncias que identifiquem um sintoma que o faça ir ao médico, lesões e traumas como auto mutilação, quedas, etc.

Na realidade tudo que a pessoa quer é convencer a equipe médica para que realize exames e procedimentos que trate a doença fictícia. É bem comum a pessoa estudar a fundo sobre a doença em questão, para assim reproduzir os sintomas dela, e ou cometer atitudes que levem a ser discutido pelos médicos a probabilidade de ela realmente estar doente, submetendo-a aos procedimentos médicos e exames.

Outro fator preocupante é que a pessoa com a síndrome dificulta demais para que se chegue a um diagnóstico, já que assim como simula os sintomas, em alguns casos ela fornece dados pessoais falsos, dificultando com a falta de referências anteriores no momento de uma consulta.

Este transtorno pode ter sido desencadeado por outros transtornos psicológicos já existentes, como a ansiedade, transtorno de humor, transtorno de personalidade e a depressão, transtorno de borderline (limítrofe). Somente tendo conhecimento da existência deste(s) transtornos já existentes o tratamento pode ser bem melhor definido, o tratamento adequado pode variar, já que em alguns casos além de psicoterapia com um psicólogo, pode ser necessário o uso de medicamentos prescritos pelo psiquiatra. 

Não se deve adiar a procura por terapia com um psicólogo, tão logo seja percebido no início de algum tipo de transtorno mesmo que leve, um dos transtornos mais comum atualmente é o de ansiedade, mas ele mesmo que leve pode desencadear outros transtornos mais graves como a depressão e a Síndrome de Munchausen, cuidar da saúde mental é tão importante quanto da saúde física e fisiológica. 

O tratamento pode ser de difícil acesso pelo psiquiatra e pelo psicólogo, já que as pessoas com a síndrome, não admitem que estão criando sintomas de doenças inexistentes, por tanto pode ser necessário que seja usado uma abordagem não agressiva e nem punitiva, podendo ser preciso tratar a síndrome sem que o paciente admita seu papel na doença. 

            A psicanálise também estuda a síndrome, e constatou que ela pode se manifestar de uma maneira bem diferente, que é chamada de Síndrome de Munchausen por procuração, ou por substituto, nestes casos a pessoa (geralmente a mãe), não cria ou força os sintomas em si própria, mas em terceiros, mais comum em crianças (filho) as quais tem contato frequente. 

Assim essas crianças são frequentemente levadas a ter atendimentos médicos, fazer exames, ir a hospitais e ou clinicas, recebendo tratamentos desnecessários, já que sua patologia orgânica foi simulada por terceiros. Para a pessoa com a síndrome ela com isso está sendo eficiente e cuidando da criança de forma correta, mesmo que com esta atitude a criança seja submetida a tratamentos perigosos, os casos mais alegados nestes casos são de: convulsões, apnéia, diarréia, vômitos, febre e até erupções cutâneas. 

            Se recomenda que em casos de ser verificado que não existe doença alguma na criança, a pessoa que teoricamente estaria cuidando da criança seja afastada dela, de acordo com Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) esta conduta é considerada abuso infantil, por tanto crime previsto em lei. Também é necessário uma avaliação minuciosa do funcionamento familiar para que em casos da síndrome ser praticada pela mãe ou pai da criança.

            Este tema é visto no filme da Netflix “Fuja” (Run) produzido em 2020, conta a história de uma filha que é vítima da mãe, que simula cuidar da filha, a adoecendo, e assim construiu uma teia de ações que debilita a filha cada vez mais. 

REFERÊNCIAS:

RAMIREZ, Gonzalo. Síndrome de Muchausen: o que é, como identificar e tratamento. www.tuasaude.com 2021.Disponível em: https://www.tuasaude.com/sindrome-de-munchausen/ acesso em 22/10/2022 às 19h.

FILHO, Daniel S. et al. Síndrome de Munchausen e síndrome de Munchausen por procuração: uma revisão narrativa. Hospital Israelite Einstein. Vol 15. 4 ed; 516-521, 2017.

MOREIRA, Thaynara; Guth, Carla. Síndrome de Munchausen: O Que é, Sintomas e Tratamento. www.minhavida.com.br 2022. Disponível em: https://www.minhavida.com.br/saude/temas/sindrome-de-munchausen  acesso em 22/10/2022 às 21h.

MELDAU, Débora Carvalho. Síndrome de Munchausen. www.infoescola.com 2022. Disponível em: https://www.infoescola.com/doencas/sindrome-de-munchausen/   acesso em 23/12/2022 às 8h.

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