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Prof. Ednewton de Vasconcelos
Colunista

Prof. Ednewton de Vasconcelos

Gestão Moderna de Tecnologia

Agile Master | PSM | CSPO | SAFe | LeSS | KCP | KMM | KC | KMP | KSD | KSI | OKR | MGT3.0 | PMI AI (3x)|Microsoft AI Especialista em processos, análise de sistemas, engenharia de requisitos e inteligência artificial. Atualmente atuo como Agile Master, aplicando Scrum, Kanban, SAFe e Lean em projetos dos setores bancário, financeiro, governamental, educacional e de tecnologia. Experiência como Scrum Master, Product Owner, analista de negócios e de requisitos, liderando equipes multidisciplinares e promovendo colaboração, entrega contínua de valor, inovação, transformação digital e adoção de IA

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Gestão Moderna de Tecnologia

Decisões que destravam:

o poder do registro, da clareza e da iteração

Como aplicar princípios do GitLab Handbook para reduzir ambiguidade e acelerar a tomada de decisão em times de tecnologia

 

O custo invisível das decisões mal registradas

Todo dia, times de tecnologia tomam muitas decisões. Algumas são pequenas. Outras mudam a arquitetura de um sistema, o escopo de uma entrega ou a prioridade de um trimestre. Quando essas escolhas ficam apenas na memória de quem participou da reunião, a organização perde contexto. Dias depois, alguém reapresenta o mesmo problema. Outro alguém discorda da solução. O time rediscute, refaz o caminho e a velocidade cai.

A ambiguidade não é apenas um incômodo. Ela vira custo: custo de atenção, custo de retrabalho, custo de confiança. Decisões não registradas parecem não existir. Quando não se sabe por que uma escolha foi feita, cada troca de pessoa no time pode recomeçar um debate que já tinha sido encerrado.

A boa notícia: existe um caminho simples para reduzir esse problema. Registrar decisões, definir responsáveis e tratar escolhas como hipóteses testáveis. Esse é o espírito do modelo operacional do GitLab, empresa conhecida por publicar seu manual de trabalho — o GitLab Handbook — com valores e práticas que ajudam equipes a decidir com mais clareza e velocidade.

 

Um sistema de decisão, não um conjunto de regras

O GitLab Handbook apresenta seus seis valores centrais por meio do acrônimo CREDIT: Collaboration, Results for Customers, Efficiency, Diversity, Inclusion & Belonging, Iteration e Transparency. Em português: colaboração, resultados para o cliente, eficiência, diversidade, inclusão e pertencimento, iteração e transparência.

 

Esses valores funcionam juntos como um sistema de tomada de decisão. A colaboração orienta a buscar boas contribuições. Os resultados para o cliente lembram que a decisão precisa gerar valor. A eficiência impede que o processo de decidir seja mais caro que o problema. A diversidade amplia as perspectivas antes do fechamento. A iteração incentiva começar pequeno e ajustar com base no aprendizado. A transparência cria um registro visível para quem precisa entender e continuar o trabalho.

No contexto brasileiro, em que muitos times convivem com contextos complexos, hierarquias variadas e pressão por entrega, esse modelo é útil porque não exige consenso lento. Exige clareza: de problema, de responsabilidade e de critérios.

 

DRI: um responsável direto, não um comitê

Um dos conceitos mais poderosos do GitLab Handbook é o DRI — Directly Responsible Individual, ou Indivíduo Diretamente Responsável. A ideia é que cada decisão ou área de resultado tenha uma pessoa claramente responsável.

Isso não significa que essa pessoa decide sozinha, sem ouvir ninguém. Significa que existe alguém com a palavra final. Em vez de esperar que um comitê ou uma cadeia de aprovações devolva uma resposta, o time sabe quem conduz a decisão. Essa prática reduz drasticamente a ambiguidade: o problema não é de todos e de ninguém ao mesmo tempo.

O DRI não precisa ser a pessoa mais sênior. Precisa ser alguém com contexto, autoridade e disponibilidade para responder pelo resultado. No dia a dia, essa prática evita as famosas reuniões em que várias pessoas discutem, ninguém decide e a tarefa fica para o próximo encontro.

 

Portas de uma via e portas de duas vias

Outro princípio valioso é a distinção entre decisões de uma via e de duas vias. Uma decisão de duas vias é reversível: se der errado, é possível voltar atrás com custo baixo. Uma decisão de uma via é difícil ou cara de reverter, como alterar uma arquitetura central ou mudar um contrato importante.

Para decisões reversíveis, não faz sentido montar um comitê nem esperar a perfeição. O time deve decidir com o melhor contexto disponível, implementar, medir e ajustar. Para decisões irreversíveis, vale investir mais tempo em análise, consulta e planejamento.

Essa classificação simples acelera a organização. Impede que decisões pequenas fiquem presas em processos grandes e permite que decisões grandes recebam o cuidado que exigem.

 

Iteração: decidir pequeno, aprender rápido

A iteração é outro valor central do GitLab Handbook. Em vez de buscar a solução perfeita antes de agir, o time entrega uma versão pequena, observa o resultado e melhora. Aplicada à tomada de decisão, essa ideia significa não tentar resolver todo o problema de uma vez.

Decisões iterativas são mais seguras porque geram aprendizado real. Se um caminho não funciona, o time descobre mais cedo e reverte com menos dor. Isso vale tanto para decisões técnicas, como adotar uma ferramenta em um projeto piloto, quanto para decisões de carreira, como escolher uma certificação que será validada na prática antes de se tornar uma trilha completa.

A iteração reduz o medo de errar. Ela não elimina o erro, mas limita o tamanho dele.

 

Transparência responsável

Transparência é um valor central no GitLab Handbook. Isso não quer dizer expor tudo a todos, o tempo todo. Quer dizer compartilhar o máximo de informação relevante possível, com responsabilidade. Dados sensíveis, questões legais e decisões em andamento precisam de cuidado. Mas, sempre que o contexto permitir, é melhor abrir do que esconder.

Quando uma decisão é registrada em um lugar acessível ao time, qualquer pessoa pode consultar o porquê. Isso reduz boatos, retrabalho e a necessidade de interromper colegas para perguntar o que ficou decidido.

Na prática, transparência responsável se traduz em documentos curtos, atualizados e fáceis de encontrar. Não exige ferramenta extraordinária. Uma página colaborativa, um quadro, um diretório de arquivos ou mesmo um documento na nuvem já cumprem o papel.

 

Como registrar decisões sem criar burocracia

Registrar decisões não precisa virar um processo pesado. O modelo conhecido como ADR — Architecture Decision Record, ou Registro de Decisão — pode ser adaptado para qualquer contexto. Um bom registro responde a perguntas básicas:

• Qual era o problema?

• Qual foi a decisão?

• Que alternativas foram consideradas?

• Que critérios orientaram a escolha?

• Quem é o responsável pela decisão?

• Qual é a data e o status?

• Que lições ficaram depois da revisão?

Esse registro pode ser simples. Não precisa ser perfeito. O importante é capturar o contexto, porque ele é a memória que permite revisitar a decisão no futuro.

Ao escrever uma decisão, o time deve explicar o porquê, não apenas o resultado. Explicar que uma tecnologia foi escolhida por causa da integração rápida com sistemas legados traz muito mais contexto do que apenas listar o nome da ferramenta. É esse contexto que evita interpretações diferentes da mesma decisão.

 

Erros comuns ao tentar acelerar decisões

Algumas práticas parecem acelerar, mas criam mais confusão. Por exemplo:

• Pular o registro porque a decisão foi simples: quando o time não anota, a memória se perde com a próxima troca de pessoas.

• Confundir velocidade com pressa: decidir rápido sem contexto suficiente pode gerar retrabalho.

• Centralizar todas as decisões no líder: isso cria gargalo e impede o time de desenvolver autonomia.

• Transformar todas as escolhas em ADRs: documentação em excesso vira burocracia e drena energia.

• Tratar decisão como definitiva: em tecnologia, muitas escolhas são hipóteses que precisam ser testadas.

Reconhecer esses erros ajuda a calibrar o processo: documentar o essencial, decidir com agilidade e revisar com frequência.

O papel das lideranças na cultura de decisão.

Quem lidera um time de tecnologia tem um papel importante na criação de uma cultura de decisão saudável. Mais do que dar respostas, a liderança pode garantir que as respostas certas sejam buscadas nos lugares certos.

 

Algumas práticas ajudam:

• Nomear um DRI para cada decisão importante.

• Combinar prazos para decidir, mesmo que as informações não estejam completas.

• Pedir que o time registre contexto, alternativas e critérios antes de trazer um pedido de aprovação.

• Tratar decisões reversíveis com agilidade e decisões irreversíveis com cuidado.

• Usar retrospectivas como espaço de aprendizado, não de culpa.

• Assumir intenção positiva em discussões difíceis.

• Dar feedback direto e, quando necessário, privado.

• Compartilhar decisões e lições de forma aberta.

Quando a liderança modela esse comportamento, a ambiguidade diminui. As pessoas começam a perceber que registrar decisões não é burocracia, mas uma forma de respeito pelo tempo de todos.

 

Um exemplo: decisões de carreira em TI

O mesmo raciocínio vale para decisões individuais. Profissionais de tecnologia enfrentam escolhas constantes: aprender uma nova linguagem, migrar de área, aceitar um desafio ou investir em uma certificação.

Tomar uma dessas decisões com base em impulso ou tendência é arriscado. Uma alternativa é aplicar o framework de registro de decisão. Se você está pensando em obter uma certificação, por exemplo, responda por escrito:

• Que problema essa certificação resolve na minha carreira?

• Ela é valorizada pelas empresas que eu quero alcançar?

• Meu nível de experiência é compatível com o exame?

• Quanto tempo e dinheiro exige?

• Como ela se conecta com o meu trabalho atual?

• Como vou medir se foi uma boa escolha?

Registrar essas respostas não garante acerto, mas reduz a ambiguidade. Quando a decisão for revisada, você terá o raciocínio documentado, sem precisar recomeçar do zero. Esse é o mesmo princípio que orienta decisões de produto, arquitetura e gestão: contexto, critérios e responsabilidade definida.

 

Evite o excesso de documentação

É preciso equilíbrio. Nem toda decisão merece um ADR completo. Criar documentação em excesso pode desacelerar o time e transformar uma prática saudável em burocracia.

Uma boa regra é registrar decisões com impacto duradouro, que envolvam trade-offs difíceis ou que sejam prováveis de gerar dúvidas no futuro. Decisões triviais, que podem ser revertidas em minutos, não precisam de processo formal. O bom senso vem com o tempo.

O objetivo não é documentar por documentar. É criar condições para que o time se mova com confiança, sabendo que o conhecimento importante está preservado.

 

Conclusão

Tomar decisões é uma habilidade essencial em tecnologia. Não porque exista uma resposta perfeita, mas porque a falta de decisão também é uma decisão — geralmente, a mais cara. Times que registram escolhas, nomeiam responsáveis e revisam caminhos com iteração ganham mais clareza e velocidade.

O modelo do GitLab Handbook é uma referência valiosa porque mostra que decisão não depende de hierarquia pesada nem de consenso completo. Depende de colaboração, transparência, eficiência e intenção de aprender.

Comece pequeno. Escolha uma decisão que está travada no seu time, registre o problema, as alternativas, os critérios e o responsável. Depois, compartilhe o documento e marque uma data para revisar. Esse gesto simples pode ser o início de uma cultura mais ágil, humana e estratégica.

Em uma próxima edição, podemos explorar com mais profundidade como combinar esses princípios com métodos ágeis e práticas de gestão de produto. O caminho está aberto.

 

Referências

Este artigo é uma curadoria autoral baseada no conteúdo aberto do The GitLab Handbook, seção GitLab Values, disponível em https://handbook.gitlab.com/handbook/values/. O material original está licenciado sob Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0 International (CC BY-SA 4.0). Recomenda-se consultar a fonte para compreensão integral dos valores e práticas citados. As adaptações feitas neste artigo são de responsabilidade editorial e não substituem a consulta às páginas oficiais de qualquer certificadora ou ferramenta mencionada.