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Prof. Juliano Heinzelmann Reinert
Colunista

Prof. Juliano Heinzelmann Reinert

Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!

Juliano Heinzelmann Reinert é mestre em Engenharia de Produção com foco em inovação, especialista com MBA FGV em Gerenciamento de Projetos, graduado em Automação Industrial, também possui certificações em gestão e TI: CCTT, COBIT, Data Cabling System MCT Fluke, FCP Professional, FCP Fibras Ópticas, FCP Master, IAPM. Sua vivência profissional inclui 26 anos de experiência.

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Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!

Quando o alerta chega e nada se faz... Crise à vista: o custo de não mudar

Uma das maiores dificuldades na gestão empresarial não é identificar problemas. Muitas vezes, os problemas estão diante dos olhos, registrados em relatórios, reuniões, indicadores e análises estratégicas. O verdadeiro desafio está em reconhecer a gravidade desses sinais e transformar diagnósticos em decisões.

Este caso de consultoria é um exemplo claro dessa situação. A empresa apresentava sinais importantes de fragilidade e recebeu, com antecedência, um diagnóstico contendo mais de 30 apontamentos e propostas de melhoria. O documento analisava o período de 2021 a 2024 e apresentava uma série de ações destinadas a corrigir problemas operacionais, administrativos, técnicos, comerciais e estratégicos.

O mais preocupante, entretanto, não era a inexistência de soluções. Elas estavam sendo apresentadas. O problema estava na dificuldade da alta gestão em reconhecer que determinados pontos precisavam ser tratados como prioridade, agora!

 

Crescer não significa necessariamente evoluir

Entre 2021 e 2023, a empresa apresentou um crescimento expressivo: 70% de 2021 para 2022 e próximo a 70% de 2022 para 2023. Porém, o próprio diagnóstico identificava consequências desse crescimento: reclamações, problemas técnicos e uma gestão cada vez mais voltada para “apagar fogo”.

Esse é um dos grandes paradoxos da administração: uma empresa pode crescer financeiramente enquanto sua estrutura interna se deteriora.

O crescimento sustentável exige que processos, pessoas, controles, tecnologia e liderança evoluam na mesma velocidade. Quando isso não acontece, o faturamento pode aumentar enquanto a rentabilidade, a qualidade e a capacidade de gestão diminuem.

A análise identificou justamente esse fenômeno. Entre 2021 e 2024, houve aumento significativo das fraquezas apontadas na análise SWOT, interpretado no próprio documento como sinal de crescimento não sustentável, falta de tratamento dos problemas e uma prévia de desastre.

 

A empresa estava administrando sem enxergar completamente os números

Um dos pontos mais críticos identificados foi a ausência de indicadores de desempenho. Sem indicadores, a direção corre o risco de administrar por percepção, experiência ou urgência, em vez de administrar por fatos.

O diagnóstico apontava que a falta de indicadores fazia o diretor trabalhar praticamente “às cegas” ou recorrer ao microgerenciamento. Entre os indicadores sugeridos estavam faturamento distribuído, propostas orçadas versus fechadas e tempo orçado versus tempo efetivamente executado.

Da mesma forma, a ausência de cronogramas dificultava saber a lucratividade dos projetos, o cumprimento dos prazos e o cumprimento dos custos. A recomendação era relativamente simples: estabelecer cronogramas simplificados e uma linha de base.

Isso demonstra uma característica recorrente em empresas em dificuldade: muitas vezes, a solução não começa com grandes investimentos, mas com gestão básica, disciplina e acompanhamento.

 

O problema não estava somente na gestão: estava também na operação

A consultoria identificou deficiências relacionadas à qualificação técnica, padronização e qualidade. A falta de qualificação da equipe poderia gerar baixa qualidade, atrasos e problemas de instalação.

Também foi constatada a ausência de instruções de trabalho padronizadas, situação que contribuía para problemas de qualidade técnica e falta de uniformidade na execução. A proposta era começar com algumas instruções de trabalho, validar o padrão e posteriormente ampliar esse conjunto.

Outro ponto relevante estava relacionado à inspeção. O diagnóstico propunha inspeções por amostragem, registros fotográficos, checklists e até visitas-surpresa, justamente para aumentar a qualidade e reduzir custos.

Portanto, não se tratava apenas de uma questão financeira. A crise potencial era resultado de um conjunto de problemas que se alimentavam mutuamente: crescimento acelerado, processos frágeis, pouca padronização, deficiência de indicadores, qualificação insuficiente e dificuldade de acompanhamento.

 

O alerta mais importante: tratar as fraquezas antes que elas se transformem em crise

Este documento de mais de 30 apontamentos não apenas identificava o aumento das fraquezas; ele alertava que elas precisavam ser tratadas e priorizadas. Esse ponto é fundamental.

Uma empresa raramente entra em uma grande crise de um dia para o outro. Normalmente, existe uma sequência de pequenos sinais que, quando ignorados, se transformam em grandes problemas.

Uma reclamação pode parecer isolada... um atraso pode parecer circunstancial... um projeto com margem baixa pode ser considerado exceção... um funcionário sem treinamento pode parecer algo administrável... um processo sem documentação pode continuar funcionando durante anos.

O perigo aparece quando esses problemas deixam de ser exceções e passam a formar um sistema e foi exatamente isso que aconteceu com esta empresa.

Foi por isso que a consultoria propôs uma agenda objetiva de ações: implantação de indicadores, atualização das fraquezas, vistorias, levantamento dos concorrentes, indicador de lucro por projeto, treinamento de gestão de conflitos, checklists e melhoria dos processos.

 

O custo da falta de prioridade

O caso mostra que uma consultoria pode diagnosticar, recomendar e apresentar caminhos, mas não pode substituir a decisão da alta gestão.

A responsabilidade estratégica permanece com quem dirige a organização.

Quando um alerta é recebido, existem basicamente três alternativas:

·         agir imediatamente,

·         estabelecer um plano de tratamento com prioridades ou

·         simplesmente postergar.

O problema é que postergar não significa eliminar o problema. Significa permitir que ele continue crescendo.

E foi justamente essa dinâmica que tornou o cenário ainda mais grave. Segundo o contexto deste trabalho, aproximadamente um ano depois dos alertas, a empresa entrou em uma grande crise. O que parecia, inicialmente, um conjunto de problemas independentes revelou-se uma crise sistêmica que já estava sendo construída anteriormente.

 

A verdadeira função de uma consultoria

O maior valor de uma consultoria não está em dizer aquilo que a empresa quer ouvir. Está em mostrar aquilo que precisa ser visto.

Neste caso, o diagnóstico procurou transformar percepções em ações concretas. Não se limitou a apontar problemas: apresentou melhorias, responsáveis, indicadores, treinamentos, auditorias e mecanismos de acompanhamento.

Até mesmo a proposta de gestão à vista tinha esse objetivo: disponibilizar indicadores e acompanhamento semanal para melhorar o andamento das atividades e aumentar o engajamento dos funcionários.

A grande lição é simples e, ao mesmo tempo, difícil de aplicar: não basta identificar o problema; é preciso tratá-lo enquanto ainda existe tempo para corrigi-lo.

 

Conclusão

Empresas não entram em crise apenas porque tomaram uma decisão errada. Muitas vezes, entram em crise porque deixaram de tomar várias decisões necessárias.

O caso analisado demonstra que os sinais estavam presentes. Havia diagnóstico, havia apontamentos, havia recomendações e havia propostas de melhoria. O que faltou foi transformar esses alertas em prioridade estratégica.

A crise, portanto, não deve ser vista apenas como o momento em que os resultados negativos aparecem. Ela começa muito antes, quando os sinais são conhecidos, mas não recebem a atenção necessária.

A principal lição para qualquer empresário ou gestor é direta: uma empresa não precisa esperar a crise para começar a mudar. Quando os indicadores, os processos, as pessoas e os clientes começam a mostrar sinais de deterioração, o momento de agir já chegou.

E talvez essa seja a maior contribuição de uma boa consultoria: mostrar a crise antes que ela tenha um nome.