Prof. Juliano Heinzelmann Reinert
Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!Juliano Heinzelmann Reinert é mestre em Engenharia de Produção com foco em inovação, especialista com MBA FGV em Gerenciamento de Projetos, graduado em Automação Industrial, também possui certificações em gestão e TI: CCTT, COBIT, Data Cabling System MCT Fluke, FCP Professional, FCP Fibras Ópticas, FCP Master, IAPM. Sua vivência profissional inclui 26 anos de experiência.
LinkedInQuando o “crescimento” vira armadilha:
Quando o “crescimento” vira armadilha:
...a história real de uma empresa que confundiu Sucesso com Invencibilidade
por Juliano Heinzelmann Reinert
Por durante 3 anos, esta empresa viveu aquilo que muitos gestores sonham: crescimento acelerado, expansão de contratos e aumento expressivo de faturamento. Em dois anos consecutivos, cresceu mais de 60%, números que, à primeira vista, indicavam sucesso, solidez e um futuro promissor. Números muito maiores que a empresa que citei no artigo este ano, que foi um crescimento aproximado de 40%.
No entanto, por trás dessa trajetória aparentemente vitoriosa, acumulavam-se fragilidades operacionais, falhas de gestão e um perigoso sentimento de autossuficiência que, ignorado por tempo demais, levou a empresa ao colapso humano e organizacional nos tempos atuais.
O que torna esse caso emblemático não é a falta de diagnóstico, pelo contrário, a empresa tinha clareza técnica sobre seus problemas, foi realizado um mapeamento de mais de 30 fragilidades estruturais com melhorias objetivas propostas, factíveis e bem direcionadas e foi apresentado ao principal líder da empresa para ele estar ciente.
Mas o verdadeiro problema foi outro: a incapacidade cultural de reconhecer que crescer rápido não significa crescer bem. Em resumo, não basta crescer em faturamento, o mais importante é crescer em resultado (lucro) mantendo ou aumentando a qualidade.
Esta empresa teve a disposição um consultor inicial para melhoria que não soube direcionar corretamente as ações, que levaram ao caos, e a um crescimento insustentável onde o mais importante era faturamento e não o “lucro” real em cada projeto, este problema e outras 30 fragilidades foram detectadas por uma consultoria mais experiente e com especialidade técnica que foi contratada para mostrar que o crescimento só em faturamento era insustentável, o que realmente é importante é o lucro de cada projeto.
Um Potencial Real de Crescimento Sustentável
Poucas empresas têm o privilégio de crescer 70% em um ano e repetir quase o mesmo desempenho no ano seguinte. Isso demonstra força comercial, mercado aquecido e demanda real pelos serviços prestados. Além disso, o core business — infraestrutura de TI — representava mais de 50% do faturamento, indicando foco estratégico claro e uma oportunidade concreta de excelência operacional. Mas este crescimento em faturamento teve um aumento de insatisfação e reclamação de qualidade técnica por parte dos clientes.
Havia ainda vantagens competitivas relevantes: contratos importantes, exclusividades com fornecedores estratégicos, equipe técnica numerosa e uma marca já reconhecida no mercado. Tudo isso colocava a empresa em posição privilegiada para profissionalizar sua gestão, estruturar processos, desenvolver pessoas e consolidar um crescimento sustentável.
Ou seja, não faltava mercado, não faltava demanda e não faltavam oportunidades. O que faltou foi humildade organizacional.
O Alerta Estava Dado
Ao longo dos anos, os sinais de alerta se multiplicaram. Falta de cronograma, ausência de indicadores de desempenho, inexistência de instruções de trabalho, falta de acompanhamento para ver se o projeto estava gerando lucro, baixa padronização, falhas recorrentes de qualidade, retrabalho, acidentes, conflitos internos e insatisfação crescente da equipe.
A própria análise interna reconhecia que o aumento das fraquezas durante os 3 anos era um sinal claro de crescimento não sustentável e uma “prévia de desastre”. Ainda assim, a resposta da liderança foi insuficiente. Em vez de priorizar as melhorias críticas, optou-se por apagar incêndios, micro gerenciar operações e normalizar o caos como se fosse parte natural do crescimento. Este líder da empresa sempre minimizou avisos que a empresa estava indo para um caminho caótico e sua frase típica era “desordem e progresso”, ele falou esta frase quando foi falado a ele que a empresa precisava ter “ordem e progresso”.
Esse comportamento é comum em empresas que confundem urgência com importância e faturamento com eficiência. O mais impressionante é que uma consultoria que não entendia nada tecnicamente incentivou este crescimento insustentável.
A Prepotência como Cegueira Estratégica
Talvez o fator mais determinante para o desfecho negativo tenha sido a prepotência gerencial. A empresa sabia que estava indo mal em diversos aspectos, mas agia como se esses problemas fossem secundários, temporários ou exagerados pela equipe operacional. Eu ouvi muito “nós somos fortes”, “não temos como quebrar”.
A missão falava em “soluções tecnológicas de excelência”, enquanto a realidade mostrava problemas básicos de qualidade. A visão prometia ser o “melhor integrador de tecnologia”, mas a empresa não se comparava seriamente com concorrentes nem investia de forma consistente na formação de um time de excelência. Por vezes avisei que precisaríamos montar um “dream team”, time dos sonhos, mas quando vi o salário baixo constatei que seria necessário valorizar mais os funcionários para ter uma equipe melhor.
Essa desconexão entre discurso e prática gerou descrédito interno. Funcionários percebiam claramente que os problemas existiam, mas sentiam que suas dores não eram priorizadas. Quando a liderança não escuta, não corrige e não age, o silêncio vira desmotivação — e a desmotivação vira desligamento.
Pessoas: o Erro Mais Caro
A empresa cresceu em números, mas encolheu em relações. A perda do “status de família”, um ambiente acolhedor, o aumento de conflitos entre áreas, a falta de clareza sobre carreira (não tinha plano de carreira inicialmente, e quando foi construído não foi levado a sério pelo líder principal), ausência de avaliação de clima organizacional e a inexistência de canais reais de escuta criaram um ambiente emocionalmente desgastante.
Funcionários não sabiam como crescer, o que era esperado deles, nem se estavam indo bem. Técnicos viam problemas se repetirem sem correção. Líderes intermediários não tinham ferramentas, autoridade clara ou processos definidos. O resultado foi previsível: queda no engajamento, perda de confiança e, por fim, evasão total da equipe.
Quando uma empresa perde todos os funcionários, não se trata de acaso, crise pontual ou “falta de mão de obra no mercado”. Trata-se de falha sistêmica de gestão.
A Oportunidade perdida de corrigir o percurso
O mais trágico dessa história é que a empresa teve tempo, diagnóstico e soluções feita por uma consultoria mais experiente, mais técnica e detalhista contratada pelo líder principal, melhor que a consultoria que ajudou a gerar este caos de crescimento insustentável. As melhorias estavam listadas, priorizadas e, em alguns casos, até iniciadas. Bastava foco, disciplina e, sobretudo, humildade para reconhecer que o modelo atual não funcionava mais.
Indicadores simples, padronização mínima, treinamento contínuo, escuta ativa dos funcionários e alinhamento entre discurso e prática teriam sido suficientes para reverter o quadro. A empresa não precisava crescer menos, precisava crescer melhor.
Mas a resistência à mudança venceu. A crença de que “sempre foi assim”, somada ao orgulho de resultados passados, impediu decisões duras no momento certo. Quando a liderança finalmente percebeu a gravidade da situação, as pessoas estavam desmotivadas e meses depois já não havia mais pessoas para sustentar a operação e perderam os melhores clientes pelo fato do líder principal ser agressivo no relacionamento.
Conclusão: Crescer é Opcional, sustentar é obrigatório
Este caso deixa uma lição clara e dura: crescimento sem gestão estratégica é apenas aceleração rumo ao colapso. Empresas não quebram apenas por falta de clientes ou faturamento, mas principalmente por ignorarem seus próprios alertas internos.
O potencial existia, as oportunidades de correção também. O que faltou foi humildade para enxergar que o sucesso do passado não garante o futuro — e que nenhuma empresa é maior do que as pessoas motivadas que a constroem todos os dias. Foi triste de ver que, a maior parte das pessoas não tinham mais motivação e emocional para continuar o trabalho e entregas porque o principal líder “estourava” facilmente inclusive com palavras ofensivas.
Quando a prepotência silencia a escuta, a consequência é inevitável: o talento vai embora, a cultura se desfaz e o negócio, por mais promissor que parecesse, deixa de existir. Fica aqui a reflexão e um convite para o próximo tema que irei falar sobre saúde mental, que se relaciona com a nova norma brasileira, a NR-1.