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Prof. Robson do Nascimento
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Prof. Robson do Nascimento

Aprender-Desaprender- Reaprender

Professor do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrando mais de 30 anos de rigor militar em logística e tecnologia à vanguarda da educação digital. É responsável pelos projetos https://dataproject.com.br/ e https://reaprender.app.br/. Contatos: https://robson.pro.br/ e https://linkedin.com/in/robson-nascimento

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O Brasil ainda está na fase da descoberta da IA. E isso muda tudo.

Abril/2026

O Brasil ainda está na fase da descoberta da IA. E isso muda tudo.

Numa mesma semana de fevereiro me deparei com duas manchetes que pareciam completamente diferentes.

A primeira, publicada pela Forbes Brasil em 26 de fevereiro de 2026, trazia um levantamento sobre empresas como Amazon, Meta, Nike, Dow e outras que vêm realizando cortes significativos de pessoal enquanto redirecionam investimentos para Inteligência Artificial (IA).

A segunda, divulgada pela FIESC em 23 de fevereiro de 2026, mostrava que o uso de IA no trabalho mais do que dobrou entre brasileiros — e que a maioria dos profissionais vê essas ferramentas como aliadas para ganhar eficiência e aprender coisas novas.

Uma notícia fala de demissões. A outra, de empregabilidade.

Parece que estamos falando de dois mundos diferentes, mas, quando olhamos com mais calma, percebemos que essas histórias não se contradizem. Elas se completam.

Já vimos esse filme antes

A matéria da Forbes mostra um movimento que já vimos acontecer em outras épocas: quando uma nova tecnologia surge, ela reorganiza o trabalho. Não é novidade. A história está cheia de momentos assim.

Vamos relembrar...

Quando os computadores chegaram aos escritórios nos anos 80, muita gente acreditou que eles acabariam com empregos administrativos. O que aconteceu foi uma mudança profunda nas tarefas e uma explosão de novas funções que ninguém imaginava.

Quando a internet se popularizou nos anos 90, profissões inteiras desapareceram, mas outras nasceram quase da noite para o dia. As bancas de jornal perderam espaço para os portais online; as videolocadoras foram engolidas pelo streaming; os datilógrafos e digitadores viram sua função sumir conforme o computador pessoal se tornava comum. Ao mesmo tempo, surgiram webdesigners, administradores de redes, analistas de segurança, programadores de sites, profissionais de e-commerce — carreiras que ninguém sequer imaginava poucos anos antes.

Quando os caixas eletrônicos se espalharam, previu-se o fim dos caixas de banco. O que ocorreu foi uma migração para funções de atendimento e serviços mais complexos.

Quando os smartphones se tornaram parte da vida cotidiana, não foi apenas um novo aparelho que entrou no bolso das pessoas — foi um novo jeito de trabalhar e se relacionar com o mundo. O marketing digital deixou de ser experimento para virar estratégia central; áreas como UX (User Experience), desenvolvimento de aplicativos móveis e segurança para dispositivos passaram a existir porque, de repente, tudo acontecia na palma da mão.

Esses momentos sempre vieram acompanhados de medo, resistência e a sensação de que “agora vai tudo mudar”. E mudou mesmo — só que de um jeito mais complexo do que as previsões apressadas sugeriam.

Enquanto isso, no Brasil, o trabalhador está descobrindo um novo jeito de trabalhar

A pesquisa divulgada pela FIESC mostra outro lado da mesma história. O uso de IA no trabalho passou de 17% para 35% em apenas um ano. E os números dizem mais do que parecem: quase oito em cada dez profissionais entrevistados afirmam que a IA aumenta sua eficiência — e a mesma proporção quer aprender mais sobre o tema. Além disso, 56% já contam com algum tipo de apoio das próprias empresas. Não é resistência que o brasileiro está sentindo: é curiosidade.

Ou seja: enquanto lá fora vemos cortes, aqui vemos adaptação. O país não é imune ao que está acontecendo globalmente, mas porque estamos em outra fase do ciclo. O Brasil está vivendo o momento da descoberta — aquele em que as pessoas começam a experimentar, testar, errar, aprender e perceber que a IA pode ser uma ferramenta de trabalho tão natural quanto o e-mail ou o smartphone.

E qual é o ponto de encontro entre as duas notícias?

Quando colocamos as duas histórias lado a lado, aquilo que parecia uma contradição começa a ganhar outra forma. A IA não está simplesmente “tirando empregos”, mas substituindo partes de tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas. As empresas que já dominam essa tecnologia estão reorganizando suas equipes porque descobriram novas maneiras de distribuir o trabalho. Ao mesmo tempo, profissionais que ainda estão aprendendo a usar essas ferramentas estão ampliando suas possibilidades, encontrando novos caminhos dentro das próprias funções.

Esse movimento não acontece de maneira uniforme. Cada setor, cada empresa e cada pessoa vive essa transição em um ritmo diferente. É como assistir a duas cenas do mesmo filme, mas em momentos distintos — uma mostrando o impacto imediato da mudança, outra revelando as oportunidades que surgem quando o susto inicial passa.

A IA está seguindo esse mesmo roteiro, só que em velocidade maior.

Aprender, desaprender, reaprender — o que isso significa na prática

Toda essa história de adaptação tecnológica pode ser resumida em três movimentos que precisamos praticar agora:

Aprender significa entender o cenário com clareza: conhecer a tecnologia, reconhecer o potencial real dos agentes de IA e ter uma opinião própria sobre ela — sem tratar a IA como oráculo nem como ameaça.

Desaprender é abandonar a confiança cega, o hábito de aceitar respostas bem formuladas como se fossem decisões corretas e o mito de que a IA “sabe tudo”.

Reaprender é construir processos, praticar validação contínua e usar a IA como aquilo que ela deve ser: uma ferramenta poderosa que amplifica quem sabe usá-la — nunca uma substituta do julgamento humano.

A tecnologia não vai esperar você se sentir pronto. Mas ela também não vai a lugar nenhum sem você.

Não perca na próxima edição a série de artigos sobre “As Skills de IA que o Mercado Vai Pagar Caro”.

Até lá!