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Jony Zatariano
Colunista

Jony Zatariano

Hobbies que Inspiram e Constroem

Jony Zatariano é um líder em marketing com sólida experiência internacional. Atuando como Head de Marketing em uma multinacional japonesa com mais de 130 anos de história, liderou a criação de centros globais de suporte e treinamento para a Furukawa, impulsionando a capacitação técnica em diversos países. Com dois MBAs – um em Estratégia de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e outro em China Business & Economic Strategies for Managers pela The Chinese University of Hong Kong – alia conhecimento estratégico à aplicação prática em ambientes altamente desafiadores

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Hobbies que Inspiram e Constroem

Por que os hobbies se tornam tão estratégicos quando estamos entre uma Sociedade de Desempenho e a Coragem de Pausar

Hobbies que inspiram e constroem

Jony Zatariano

Por que os hobbies se tornam tão estratégicos quando estamos entre uma Sociedade de Desempenho e a Coragem de Pausar

Recentemente, em entrevista ao apresentador Adilson Junior no programa Redfox Conecta, da Redefox TV, uma provocação ganhou força: estamos vivendo o auge da sociedade do desempenho — e talvez o início da sociedade do cansaço.

A conversa partiu de uma indicação que virou lição de casa. Ao ler A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, fica impossível não reconhecer o retrato da nossa época. Primeiro, uma sociedade disciplinar, baseada na obediência e na regra. Depois, a sociedade do desempenho, movida por metas, produtividade, alta performance e pelo discurso sedutor de que “você pode tudo”. E agora? Uma sociedade exausta?

O problema não é performar. O problema é performar o tempo todo.

Vivemos sob a lógica do “eu tenho que fazer”. Não há mais pausas legítimas. O tempo livre virou culpa. O descanso virou fraqueza. A agenda virou identidade. E o resultado disso é um profissional que entrega mais, mas sente menos; produz mais, mas vive menos.

É nesse contexto que o projeto Hobbies que Inspiram e Constroem nasce — não como uma receita, não como mais uma cobrança, não como uma ordem para sair correndo e escolher um passatempo. Mas como um convite à reflexão. Seja leve! Experimente! Descubra!

Porque já estamos saturados de pessoas dizendo o que fazer.

Quando a vida vira apenas desempenho, a frustração se instala. A comparação constante corrói. A sensação de nunca ser suficiente se intensifica. E, silenciosamente, cresce o adoecimento emocional nas organizações. Não é coincidência que ansiedade e depressão se tornaram temas centrais no ambiente corporativo.

A grande pergunta não é: “Qual é o seu hobby?”. A grande pergunta é: “Você tem um espaço na sua vida onde não precisa performar?”

Durante a entrevista, um relato simples ilustrou essa transformação. Uma pessoa comentou: “Meu hobby é apreciar vinho”. E só naquele momento percebeu que já tinha um hobby — sem diploma, sem certificação, sem meta. Apenas prazer.

Essa é a chave.

Você não precisa ser especialista.
Você precisa sentir prazer.

Hobby não é sobre excelência técnica. É sobre presença. É sobre permitir-se estar inteiro em algo que não está atrelado a KPI, avaliação de desempenho ou bônus anual.

O motociclismo, por exemplo, não é sobre velocidade ou status. É sobre pegar a estrada, observar o ambiente, respirar outro ritmo. O crochê, muitas vezes visto como algo simples ou antigo, é uma aula contemporânea de gestão emocional: ele reduz o estresse, aumenta a concentração e ensina uma competência rara — errar e recomeçar. Quem lembra da avó que desmontava uma fileira inteira porque percebeu que errou um ponto? Ela não via aquilo como fracasso. Ela via como parte do processo. No mundo corporativo, quantos profissionais desmontam projetos e recomeçam com essa serenidade?

O hobby ensina algo que os MBAs raramente ensinam: tolerância ao erro sem crise de identidade.

Mas há um alerta importante.

Quando o hobby começa a virar vício, ele perde sua essência. E aqui entra um dos pontos mais sensíveis da nossa época: o consumo desenfreado de conteúdo rápido. Os vídeos curtos, os “shorts”, os cortes de segundos que disputam nossa atenção, nossos likes, como se fosse um leilão. Eles ativam ansiedade. Criam a urgência de prender alguém em menos de 10 segundos. E, quando percebemos, nós mesmos somos os prisioneiros.

Não se trata de criticar a tecnologia. Trata-se de consciência. Se algo que deveria ser entretenimento começa a gerar agitação, comparação constante ou sensação de tempo perdido, ele deixou de ser hobby. Virou fuga.

Por isso, talvez a pergunta mais estratégica para os nossos leitores nesse momento seja: você ocupa seu dia apenas com obrigações ou também com experiências que te regulam emocionalmente? Porque o grande problema atual não é falta de competência. É desconexão interna.

Muitas pessoas não estão bem consigo mesmas. E, nesse estado, até o lazer vira cobrança. O hobby vira mais uma meta. Mais uma performance. Mais um espaço para provar valor.

E ele não pode ser isso.

O hobby precisa ser o momento em que o mundo some. Em que você não está tentando impressionar ninguém. Em que você não está competindo. Em que você simplesmente está.

Nós precisamos que o mundo suma um pouco.

Organizações que falam sobre inovação, criatividade e liderança empreendedora precisam entender que cérebros exaustos não criam. Pessoas drenadas não inovam. Profissionais que vivem em estado constante de alerta não sustentam visão estratégica.

Separar 10, 20 minutos por dia pode parecer pouco. Mas é revolucionário. É um ato de resistência contra a cultura da exaustão. É um gesto de liderança pessoal.

Não é sobre abandonar responsabilidades. É sobre ampliar identidade.

Quando alguém descobre um hobby, não descobre apenas uma atividade. Descobre um território onde pode ser humano antes de ser cargo.

E talvez seja exatamente isso que vai diferenciar os líderes do futuro: não apenas os mais produtivos, mas os mais conscientes.

Porque, no fim das contas, a sociedade do desempenho pode até premiar quem faz mais. Mas a sociedade do cansaço cobra um preço alto de quem nunca para.

A pergunta que fica para você leitor, é simples e profunda:

Onde, na sua agenda lotada, existe um espaço onde você não precisa ser extraordinário — apenas verdadeiro?

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