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Prof. Juliano Heinzelmann Reinert
Colunista

Prof. Juliano Heinzelmann Reinert

Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!

Juliano Heinzelmann Reinert é mestre em Engenharia de Produção com foco em inovação, especialista com MBA FGV em Gerenciamento de Projetos, graduado em Automação Industrial, também possui certificações em gestão e TI: CCTT, COBIT, Data Cabling System MCT Fluke, FCP Professional, FCP Fibras Ópticas, FCP Master, IAPM. Sua vivência profissional inclui 26 anos de experiência.

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Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!

Mudar dói: os desafios, resistências e barreiras que quase travaram a evolução de uma empresa

Mudar dói: os desafios, resistências e barreiras que quase travaram a evolução de uma empresa

por Juliano Heinzelmann Reinert

As ações realizadas em uma empresa que tive a oportunidade de trabalhar buscaram elevar o nível de qualidade, padrão e competitividade da empresa, especialmente na vertical de conectividade, com forte foco em cabeamento estruturado, processos, gestão e boas práticas. Contudo, como em qualquer processo de mudança organizacional profunda, os resultados alcançados vieram acompanhados de inúmeros desafios, dificuldades, barreiras internas e resistências explícitas e implícitas.

Este artigo tem como objetivo analisar de forma crítica e estruturada os principais obstáculos enfrentados ao longo dessa jornada, evidenciando não apenas os aspectos técnicos, mas também os fatores humanos, culturais e organizacionais que impactaram diretamente a velocidade e a eficácia das transformações propostas.

O desafio da base técnica insuficiente

Um dos primeiros e mais evidentes desafios identificados foi a fragilidade da base técnica da equipe. O diagnóstico inicial revelou um nível de conhecimento extremamente abaixo do esperado em cabeamento estruturado, com uma média de apenas 9% de acerto em um questionário técnico com 20 perguntas essenciais da área de conectividade (infraestrutura de TI). Esse dado não representava apenas uma lacuna de conhecimento, mas um risco direto à qualidade das entregas, à imagem da empresa e à sustentabilidade do crescimento.

Mesmo após treinamentos teóricos e práticos, que elevaram esse índice para patamares próximos de 60% a 70%, ficou claro que a evolução, embora relevante, ainda era insuficiente para alcançar a excelência desejada. A dificuldade de absorção de conceitos normativos, a execução inconsistente em campo e a reincidência de erros básicos demonstraram que a formação técnica exigia continuidade, disciplina e, sobretudo, engajamento individual, algo que nem sempre ocorreu.

Resistência à padronização e às normas

Outro obstáculo significativo foi a resistência à adoção de padrões técnicos e normas de mercado porque a cultura desta empresa era de fazer “barato” quase sempre fora das melhores práticas e normas. Por um lado o líder geral muito preocupado com lucratividade, por outro o setor de compras preocupado com a lei da vantagem de comprar o mais barato sem se preocupar diretamente com a qualidade.

A implementação de boas práticas em projetos, a reforma do rack interno e a exigência de conformidade com normas evidenciaram o quanto a empresa operava historicamente de forma improvisada ou baseada em práticas informais.

A padronização, embora essencial para ganho de escala, qualidade e previsibilidade, foi percebida por parte da equipe como excesso de controle ou burocracia. Essa resistência se manifestou em atrasos, execução fora do especificado, retrabalhos e, em alguns casos, na simples não observância das orientações técnicas previamente acordadas.

Barreiras culturais e comportamentais

As dificuldades enfrentadas não se limitaram ao aspecto técnico. Barreiras culturais e comportamentais tiveram peso significativo no processo. O baixo comprometimento com prazos, a dificuldade em assumir responsabilidades claras e a necessidade constante de cobranças reforçaram a percepção de uma cultura ainda pouco orientada a resultados e entregas.

Casos recorrentes de atrasos na execução de atividades críticas, como a reforma do rack interno ou a validação técnica de propostas, demonstraram que a sobrecarga de trabalho foi frequentemente utilizada como justificativa, quando, na prática, havia também problemas de priorização, disciplina e senso de urgência.

Além disso, foi possível observar resistências sutis à liderança técnica, especialmente quando orientações vinham acompanhadas de auditorias, métricas e indicadores de desempenho. A introdução de KPI’s, gestão à vista e auditoria de processos encontrou dificuldades não apenas operacionais, mas de aceitação cultural.

Dificuldades no engajamento e aprendizado contínuo

Apesar de metas claras estabelecidas, como a exigência de realização de cursos na plataforma de conhecimento, o engajamento da equipe ficou aquém do esperado. Apenas um técnico cumpriu integralmente a meta proposta que foi planejada e tinha um tempo de 4 meses para finalizar, evidenciando uma dificuldade estrutural em criar uma cultura de aprendizado contínuo.

Esse comportamento reforça uma barreira comum em organizações que estão crescendo: a crença de que a experiência prática acumulada ao longo dos anos é suficiente, reduzindo a percepção de valor dos treinamentos formais, certificações e reciclagens técnicas. O resultado direto disso é a manutenção de vícios de execução, erros recorrentes e dificuldade em acompanhar a evolução tecnológica do mercado.

Resistências no processo comercial e de projetos

O alinhamento entre as áreas técnica, comercial e de projetos também se mostrou um desafio relevante. A baixa absorção de conceitos técnicos por parte de profissionais envolvidos na elaboração de propostas gerou riscos de especificações inadequadas, desalinhamento com as melhores práticas e potenciais insatisfações de clientes.

A necessidade de criar travas no sistema para obrigatoriedade de validação técnica das propostas evidencia que o processo, por si só, não estava sendo respeitado. Essa resistência ao fluxo estruturado demonstra uma cultura ainda muito dependente de decisões individuais.

Barreiras na adoção de processos e ferramentas de gestão

A criação de mapas de processos, cronogramas com linha base, checklists, auditorias e ferramentas como Canvas semanal de execução encontrou dificuldades práticas na sua adoção. Embora as ferramentas sejam comprovadamente eficazes, sua aplicação exige disciplina, constância e mudança de mentalidade. Com um líder centralizador, a adoção de novos processos ficaria muito mais difícil de aplicar, porque as melhores ideias “segundo este principal líder” deveriam vir dele, não que ele falasse isso, mas suas atitudes denunciavam isso.

A baixa utilização efetiva dessas ferramentas reforça que a transformação organizacional vai além da criação de documentos e fluxos: ela depende da internalização dos conceitos e da percepção de valor por parte das pessoas envolvidas.

Impacto da comunicação e gestão da informação

Outro ponto crítico identificado foi a comunicação com clientes, especialmente via grupos de WhatsApp, tínhamos um grupo para cada projeto do cliente. A falta de um cronograma dinâmico que funciona (ex: gráfico de Gantt) e a dificuldade de ajustes em tempo real geraram ansiedade, ruídos de comunicação e, em alguns casos, insatisfação explícita.

Internamente, a criação de documentos técnicos sem validação adequada também representou um risco importante, expondo a empresa a questionamentos do mercado e da concorrência. Esse cenário reforça a necessidade de curadoria técnica rigorosa e processos claros de aprovação de conteúdo.

Conclusão

Os desafios enfrentados por esta empresa ao longo desse período evidenciam que a busca pela excelência técnica e organizacional é um processo complexo, que exige não apenas conhecimento e ferramentas, mas principalmente mudança cultural, engajamento e liderança consistente.

As dificuldades, barreiras e resistências encontradas não anulam os avanços conquistados. Pelo contrário, deixam claro que a empresa deu passos importantes rumo à profissionalização, mas ainda enfrenta o desafio de consolidar esses avanços de forma sustentável.

Superar essas barreiras passa por fortalecer a cultura de aprendizado contínuo, aumentar o senso de responsabilidade individual, consolidar processos e reforçar a importância da qualidade como diferencial estratégico. A transformação está em curso, mas seu sucesso dependerá da capacidade da organização de alinhar pessoas, processos e propósito em torno de uma visão comum de excelência.