Jony Zatariano
Hobbies que Inspiram e ConstroemJony Zatariano é um líder em marketing com sólida experiência internacional. Atuando como Head de Marketing em uma multinacional japonesa com mais de 130 anos de história, liderou a criação de centros globais de suporte e treinamento para a Furukawa, impulsionando a capacitação técnica em diversos países. Com dois MBAs – um em Estratégia de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e outro em China Business & Economic Strategies for Managers pela The Chinese University of Hong Kong – alia conhecimento estratégico à aplicação prática em ambientes altamente desafiadores
LinkedInRESILIÊNCIA
Coluna: Hobbies que inspiram e constroem
Jony Zatariano
Resiliência
Substantivo feminino
FÍSICA: propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
FIGURADO: capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
RESILIÊNCIA EMOCIONAL: é a capacidade de enfrentar um problema ou dificuldade, aprender com ele, não se apegar a esse evento negativo e conseguir seguir adiante.
Em um mundo cada vez mais acelerado, falar sobre resiliência virou quase um clichê. Mas, se existe um território onde a resiliência realmente ganha forma, não é necessariamente nas teorias e talvez nem nos grandes marcos da vida, mas sim nos nossos hobbies, pequenos espaços que escolhemos para respirar, criar e experimentar. São eles que nos lembram que existe um ritmo mais humano, mais honesto e mais alinhado ao que somos de verdade. Aquilo que fazemos por prazer, curiosidade ou simples vontade de explorar algo novo tem a capacidade de moldar nossa disciplina, ampliar nossa visão e fortalecer nossa capacidade de agir com mais consciência e coragem.
Hobbies são territórios de liberdade, no qual não precisamos ser bons, não precisamos provar nada a ninguém, não precisamos transformar aquilo em resultados, e justamente por não haver expectativas externas, podemos desenvolver habilidades profundas de autoconhecimento, persistência, criatividade, foco e adaptabilidade.
Geralmente ter um hobby exige mais resiliência do que podemos imaginar. Ser resiliente ao praticar um hobby é essencial, porque é justamente nesse espaço livre de cobranças que aprendemos a atravessar as pequenas frustrações que fazem parte de qualquer processo de crescimento. Quando a receita dá errado, quando o acorde não sai, quando a corrida parece mais difícil do que ontem, somos convidados a continuar — não porque precisamos provar algo, mas porque existe prazer no próprio caminho. Essa constância leve fortalece nossa capacidade de insistir sem se machucar, ajustar sem desistir e avançar sem pressa.
A frustração quando vem, chega sem o peso do fracasso, ela é apenas parte do processo, e essa leveza muda tudo. Ela nos ensina que nem todo erro é um obstáculo — Às vezes, é somente um treino. É no hobby que descobrimos que resiliência não é resistência rígida, mas a suavidade de tentar outra vez com curiosidade e vontade genuína de evoluir. É ali, no ensaio imperfeito, no erro repetido, no pequeno progresso diário, que aprendemos a lidar com nossas frustrações de forma leve e natural. Essas experiências constroem, sem barulho, uma musculatura emocional poderosa.
Silvio Santos é um exemplo emblemático do poder dessa construção silenciosa, aprendeu a lidar com as frustrações que fazem parte de qualquer processo de evolução, seus hobbies o ajudaram a construir sua personalidade. Ao jogar cartas, exercitava estratégia, improviso e a capacidade de aceitar perdas sem perder o espírito do jogo. Nas longas conversas com as pessoas, praticava paciência, escuta ativa e a flexibilidade de navegar por diferentes histórias e personalidades. E ao andar de barco, aprendia a conviver com o imprevisível, porque o vento muda e a correnteza altera o percurso, e ainda assim é possível ajustar a rota e seguir. Em cada um desses momentos simples, Silvio fortalecia a mesma resiliência que marcou sua vida — a habilidade de tentar de novo, adaptar-se e encontrar prazer no próprio processo, aprendeu a experimentar, arriscar, errar, improvisar, e tentar de novo. Exercia, mesmo sem perceber, o tipo de ação corajosa que nasce da curiosidade e transformou a simplicidade do que gostava em movimento, e esse movimento virou história. Sua trajetória mostra que resiliência não é dureza; é flexibilidade. É a capacidade de rir do erro, ajustar a rota e continuar. É brincar enquanto aprende. E isso não é uma habilidade técnica, é um modo de ser.
Nossos hobbies nos moldam, a fotografia, por exemplo, educa o olhar. Ensina a esperar a luz certa, a observar com mais calma, a buscar perspectivas novas. O artesanato trabalha a paciência, o foco e a leveza. O ciclismo treina o corpo, mas também a mente que insiste em continuar mesmo diante do vento contrário. Cada hobby abre uma porta para o entendimento de que resiliência não é resistir até quebrar, mas aprender a continuar de formas diferentes.
Hobbies também têm um papel profundo na forma como lidamos com o "não". O "não" que nos frustra, o "não" que nos confronta, o "não" que revela nossa vulnerabilidade. As pessoas têm dificuldade em lidar com ele porque crescemos acreditando que o "não" é sinônimo de incapacidade, rejeição ou fracasso. Mas, nos hobbies, o "não" aparece de maneira muito mais leve — e muito mais educativa. No desenho que não ficou como imaginamos, no texto que não fluiu, na receita que falhou, no truque de mágica que não funcionou, e mesmo assim, tentamos outra vez. Pintar nos ensina que algumas cores simplesmente não se misturam, e que recomeçar faz parte. Esportes nos mostram que metas às vezes parecem distantes, mas que a cada tentativa aproxima. Escrever nos lembra que nem toda ideia vira um bom texto, mas cada rascunho expande a expressão. São os “Nãos” que treinam nossa capacidade emocional de enfrentar recusas, com menos dor e mais maturidade. Hobbies criam forças que transformam quem somos, ampliando nossa criatividade, flexibilizando nossa mente e nos tornando mais tolerantes às frustrações. Eles nos devolvem o equilíbrio entre prazer e progresso, ensinam a respeitar nossos ritmos, a celebrar pequenas conquistas e a experimentar sem medo. E, com isso, moldam profissionais mais confiantes, líderes mais humanos e pessoas mais inteiras, capazes de agir com clareza e autenticidade.
A verdade é que, em uma sociedade obcecada por resultados, metas, performance e produtividade, hobbies nos devolvem algo que esquecemos: o direito de ser aprendiz. De começar algo sem expectativas. De buscar evolução sem pressão. De encontrar sentido no simples. Eles nos lembram que não precisamos transformar tudo em resultado e que, muitas vezes, é justamente quando não buscamos nada grandioso que descobrimos nossas maiores forças.
No fundo, cada hobby é uma porta que se abre para uma nova versão de nós mesmos. Uma versão que experimenta mais, que se cobra menos, que age com mais coragem e que se adapta com mais naturalidade. Uma versão que entende que resiliência não é suportar até não aguentar mais, mas saber continuar de maneiras diferentes. Uma versão que percebe que ação não é velocidade — é constância.
Uma provocação final
Se há um convite que os hobbies nos fazem, é este: pare de esperar o momento perfeito para agir. Lembre-se! A vida é construída em pequenos começos.
Talvez o que falta para você destravar uma nova fase da sua jornada não seja mais conhecimento técnico, mais planejamento ou mais controle. Talvez falte apenas dar espaço ao simples. Abrir uma brecha na rotina para algo que te mova, te desafie e principalmente, que te conecte consigo mesmo.
Qual pequeno hábito de prazer você pode iniciar hoje que vai te tornar alguém mais resiliente, mais criativo e mais preparado para agir? Permita-se escolher algo que desperte sua curiosidade e dê o primeiro passo — às vezes, é esse simples movimento que abrirá portas para transformações que você ainda nem imagina.
Boas festas — que 2026 traga novos olhares, coragem para recomeçar e inspiração para construir tudo o que ainda está por nascer.
