Revista Carreiras TI
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Prof. Robson do Nascimento
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Prof. Robson do Nascimento

Aprender-Desaprender- Reaprender

Professor do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico da Fundação Getúlio Vargas (FGV), integrando mais de 30 anos de rigor militar em logística e tecnologia à vanguarda da educação digital. É responsável pelos projetos https://dataproject.com.br/ e https://reaprender.app.br/. Contatos: https://robson.pro.br/ e https://linkedin.com/in/robson-nascimento

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A Guerra Invisível pelo Foco

Junho/2025

A Guerra Invisível pelo Foco

Vivemos numa era em que a moeda mais valiosa não é o tempo, nem o dinheiro. É a atenção. E quem trabalha com tecnologia está no epicentro dessa guerra silenciosa. Cada notificação, cada e-mail, cada alerta é um disparo contra a nossa capacidade de manter o foco.

A pergunta que paira no ar não é mais “como gerenciar meu tempo?”, mas sim:

“Como blindar minha atenção em um mundo que vive tentando sequestrá-la?”

No dia a dia, as multitarefas viraram “status” e estão nos matando lentamente. Os projetos simultâneos, o trabalho em equipe, as reuniões em cascata e as plataformas de mensagens nunca dormem.

Alguns vivem na ilusão da produtividade... mas, parecer ocupado não é produzir.

Qual é o resultado disso tudo?

Alguns experimentam um ciclo vicioso de distração crônica e o burnout precoce aparece.

No entanto, a atenção é um recurso finitamente valioso.

O cérebro humano não foi feito para “alternar entre contextos” o tempo todo. Cada interrupção exige um custo cognitivo: é o que chamamos de "taxa de troca de contexto" (context-switch tax).

Estudos conduzidos por Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, mostram que o tempo médio para retomada de foco após interrupções gira em torno de 23 minutos — mas o custo cognitivo vai além: aumenta o estresse, a ansiedade e reduz a performance criativa.”

Some isso ao seu dia e descubra por que você chega exausto ao fim do expediente mesmo sem grandes entregas.

Esse looping de atenção fragmentada ativa o sistema de alerta constantemente, gerando picos de cortisol e sobrecarregando o cérebro — o terreno ideal para o burnout florescer.

Mas há saídas...

Técnicas Práticas para Gerenciar Atenção e Proteger a Energia

1. Agrupamento de Tarefas

Agrupar tarefas similares em blocos de tempo é uma técnica que visa reduzir o que chamamos de custo de alternância mental — o esforço e o tempo perdido toda vez que mudamos de uma tarefa para outra. Esse conceito está diretamente relacionado à ideia de que, ao tentar realizar várias tarefas diferentes em um curto período, o cérebro precisa fazer ajustes, o que diminui a nossa eficiência.

Quando alternamos entre tarefas diferentes, nosso cérebro precisa ajustar seu foco e reorganizar os recursos cognitivos, como atenção e memória de trabalho, levando à perda de produtividade, pois, além de ser necessário o esforço mental para reiniciar uma tarefa, também existe o tempo de adaptação até que o cérebro entre de fato no ritmo da nova tarefa.

Por exemplo, se você estiver programando um código e, em seguida, for checar um e-mail ou responder a uma mensagem (como no Slack ou Teams), o cérebro precisa trocar de contexto. Esse processo não é instantâneo e pesquisas apontam que essa troca de contexto pode levar vários minutos, o que pode resultar em uma grande perda de tempo no final do dia.

2. Blocos de Foco (Timeboxing)

Planejar blocos de foco e respeitar como se fosse reunião com CEO.

Significa reservar horários específicos no seu dia para trabalhar com foco total em uma única tarefa importante, sem interrupções, sem distrações, sem multitarefa.

Esse método é conhecido como timeboxing. Quando, literalmente, colocamos “o tempo na caixa”, isto é, o alocamos no calendário — definimos uma janela e colocamos o que será feito. Algo do tipo:

9h às 10h – Tarefas 1, 2 e 3

14h às 15h30 – Tarefas 4 e 5

16h às 16h30 – Tarefa 6

A sacada é: não deixar a tarefa “vagar” solta pela lista de afazeres. Elas devem ser “amarradas” no tempo. Algumas ferramentas úteis são o Google Calendar, Outlook, Notion...

3. Fazer uma “Dieta de Notificações”

Desligue tudo. WhatsApp? Só em horário programado.

Slack/Teams? Sem pular entre canais feito coelho em rave.

Um desenvolvedor focado é mais raro que um bug resolvido na primeira tentativa.

4. Técnica Pomodoro Evoluída

A famosa Técnica Pomodoro, criada por Francesco Cirillo, consiste em:

Trabalhar por 25 minutos;

Fazer uma pausa de 5 minutos;

Repetir o ciclo 4 vezes e, depois, fazer uma pausa maior.

É útil? Para iniciantes, sim. Para quem tem foco reduzido ou está recomeçando depois de um burnout, é um bom recondicionamento de atenção.

Mas para um profissional de TI maduro, que precisa entrar em estado de concentração profunda, 25 minutos é pouco. Você mal entra no raciocínio e o timer já apita dizendo que é hora de parar. Resultado? Você treina a mente para a superficialidade contínua.

5. Mindfulness (sem virar um monge)

A maioria das pessoas acredita que foco é algo binário: ou você tem ou você não tem. Mas isso é tão ingênuo quanto achar que força física é um dom genético imutável. Assim como podemos fortalecer um bíceps com treino, também podemos treinar o cérebro para sustentar atenção por mais tempo, com mais estabilidade e menos esforço.

Escolha uma dessas técnicas — seja o timeboxing, a dieta de notificações ou o treino de foco com mindfulness — e implemente amanhã mesmo.

Teste. Meça. Reflita e vá ajustando. Pequenos ajustes diários constroem grandes resultados semanais.

A pergunta é: estamos treinando ou estamos apenas reagindo ao caos diário?

A Mente também precisa de Segurança

Todo profissional de TI sabe: o repositório de código é sagrado. "Você não deixaria qualquer um mexer no seu repositório, certo?"

Ali está o coração do projeto, a inteligência, a lógica, o trabalho duro, a alma da arquitetura. Você protege com senhas, permissões e revisões antes de qualquer alteração entrar no código. Não é mesmo?

Agora pense: por que você não tem o mesmo zelo com a sua mente?

Você bloqueia acessos no Git, mas deixa notificações invadirem seu cérebro o dia inteiro, sem filtro, sem critério...

O foco é o nosso capital intelectual. E a nossa mente é o “mainframe”.

Simples assim.

Concluindo...

Foco é Liberdade. Distração é Prisão Disfarçada.

Enquanto o mundo corre atrás do próximo app milagroso, do novo framework ou da técnica “ninja” de produtividade, a verdade é: quem controla a própria atenção, controla o próprio destino.

Porque no fim, não somos o que está no nosso currículo. Não somos quantas linguagens dominamos, nem quantos certificados possuímos.

Somos aquilo que conseguimos manter no campo da atenção sem nos perder. Aquilo que sustentamos com presença, profundidade e intenção — mesmo quando tudo ao redor tenta nos puxar para a distração.

Essa é a liberdade que não se compra. É a liberdade de ser inteiro em um mundo fragmentado.

Foco é força. E força se constrói com treino.

E nesse jogo, o profissional que vence não é o mais ocupado — é o mais focado.

Leituras Recomendadas

KABAT-ZINN, Jon. Mindfulness para iniciantes: como encontrar a paz em um mundo frenético. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

NEWPORT, Cal. Trabalho Focado: Como ter sucesso em um mundo distraído. Rio de Janeiro: Alta Books, 2017.

HALL, Edward M. As armadilhas da produtividade: Por que estar sempre ocupado não é o mesmo que ser produtivo. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2020.

GASPAR, João R.; CUNHA, Luís M. da. Burnout em profissionais de tecnologias de informação: Prevalência, fatores associados e medidas de prevenção. Revista Portuguesa de Psicologia, v. 56, n. 2, p. 203–221, 2021.

MARK, Gloria; VOIDA, Stephen; CARDENAS, R. et al. The Cost of Interrupted Work: More Speed and Stress. University of California, Irvine, 2008. Disponível em: https://www.ics.uci.edu/~gmark/chi08-mark.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025.