Prof. Juliano Heinzelmann Reinert
Gestão de Projetos e Infraestrutura de TI na prática!Juliano Heinzelmann Reinert é mestre em Engenharia de Produção com foco em inovação, especialista com MBA FGV em Gerenciamento de Projetos, graduado em Automação Industrial, também possui certificações em gestão e TI: CCTT, COBIT, Data Cabling System MCT Fluke, FCP Professional, FCP Fibras Ópticas, FCP Master, IAPM. Sua vivência profissional inclui 26 anos de experiência.
LinkedInUm projeto GPON de qualidade versus projetos com síndromes de baixa qualidade
Um projeto GPON de qualidade versus
projetos com síndromes de baixa qualidade
por Juliano Heinzelmann Reinert
Um projeto GPON de fibra óptica é uma implementação de rede que utiliza a tecnologia GPON (Gigabit Passive Optical Network) para fornecer uma rede de alta velocidade por meio de fibras ópticas. Envolve o planejamento e a instalação de equipamentos, splitters e cabos ópticos que conectam uma central de distribuição (OLT) até os usuários finais (ONTs), permitindo a transmissão eficiente de dados, voz e vídeo com alta capacidade e baixo custo de manutenção.
A qualidade técnica da infraestrutura de TI, especialmente do cabeamento estruturado, é essencial para o bom funcionamento das redes corporativas. Apesar de muitas vezes negligenciada em favor de softwares e sistemas, a base física da TI é crucial, é a “estrada” para garantir desempenho, segurança, escalabilidade e confiabilidade. O cabeamento estruturado, padronizado por normas como ANSI/TIA-568 e ISO/IEC 11801, organiza e conecta dispositivos de forma eficiente, evitando problemas como interferência, falhas e lentidão.
Seguir essas normas, evitar práticas inadequadas e adotar boas práticas como identificação de cabos e certificação da rede são medidas que garantem a durabilidade e a eficácia da instalação. No entanto, mesmo com materiais de qualidade, a competência dos profissionais envolvidos é determinante. Profissionais capacitados asseguram que o projeto seja bem executado, evitando retrabalhos e prejuízos. Assim, investir em infraestrutura técnica e qualificação é uma estratégia indispensável para sustentar a operação e o crescimento das organizações na era digital.
Neste artigo você vai conhecer características que fazem um projeto GPON ser de alta qualidade e as suas síndromes, que é um conjunto de sinais e sintomas que se acontecerem vamos caracterizar projetos de baixa qualidade.
Estudo de Viabilidade e Levantamento de Requisitos
Antes de qualquer definição técnica, é essencial entender o ambiente:
Quantidade de usuários e dispositivos finais (estações, telefones IP, câmeras IP etc.).
Largura de banda necessária por tipo de aplicação.
Distância entre OLT e os pontos terminais.
Tipo de infraestrutura existente (prédios, canaletas, shafts).
Previsão de crescimento (escopo escalável).
Equipamentos Certificados e Compatíveis
OLT (Optical Line Terminal) de fabricante confiável, com suporte a gerenciamento e redundância.
ONTs (Optical Network Terminals) adequadas ao uso (residencial, corporativo, câmeras IP, Wi-Fi, etc.)
Splitters ópticos (1:2, 1:4, 1:8, 1:16, 1:32) passivos e com baixa perda.
Patch cords, adaptadores e caixas de terminação óptica que sigam padrões como SC/APC ou LC.
Cabeamento Óptico de Qualidade
Uso de fibra monomodo (SM) G.652.D ou superior.
Escolha de um fabricante que tenha qualidade, opções, treinamentos, que fabrica produtos melhor que o limite da norma e que tenha pós venda (apoio quando o cliente solicitar). Se o fabricante é líder de mercado, já comprova a qualidade e aceitação.
Cuidado com os raios de curvatura e resistência à tração.
Identificação e documentação de rotas, fusões e pontos de divisão.
Planejamento da Topologia
Definir se será P2MP (ponto a multiponto) com splitters centralizados, convergência local ou distribuídos (depende muito de cada caso).
Garantir que todas as perdas ópticas estejam dentro do orçamento permitido pela OLT (normalmente até 28–32 dB).
Engenharia de Perdas Ópticas (Link Budget)
Cada elemento da rede introduz perda (em dB), e isso deve ser calculado:
Fibra óptica: ~0,36 dB/km (em 1310 nm) ou ~0,22 dB/km (em 1490 nm)
Emenda por fusão: ~0,1 dB por emenda
Conectores: ~0,3 dB cada
Splitters: dependem da razão de divisão (ex: 1:8 ≈ 10,5 dB)
Exemplo de cálculo de perdas para um link de 5 km com splitter 1:8:
Fibra: 5 km × 0,22 dB = 1,1 dB
Splitter 1:8: ~10,5 dB
2 conectores: 0,3 × 2 = 0,6 dB
3 fusões: 0,1 × 3 = 0,3 dB
Total: 12,5 dB < 28 dB → OK (se for menor que a perda máxima, APROVADO)
Divisão Óptica (Split Ratio) e Como Calcular
O Que é a Razão de Divisão?
A divisão óptica (ou split ratio) determina quantos usuários (ONTs) podem ser atendidos por uma única porta da OLT. Exemplo: um split de 1:32 significa que uma porta da OLT atende até 32 ONTs.
Como Determinar o Split Ideal? Com base na largura de banda total disponível por porta
Embora temos GPON de 10Gbps, na prática geralmente oferece até 2,5 Gbps downstream e 1,25 Gbps upstream. Essa banda será dividida entre os usuários do split.
Exemplo:
1 porta OLT com 1:32 → 2,5 Gbps ÷ 32 ≈ 78 Mbps por usuário (compartilhado) se todos usuários (100%) estiverem utilizando ao mesmo tempo na taxa máximo de usuário.
Mas aumenta para 390 Mbps por usuário se 20% de todos usuários estiverem utilizando ao mesmo tempo, o que ocorre na maioria das vezes, mas precisa analisar cada caso.
Se o uso for intenso (corporativo, CFTV, videoconferência), talvez usar 1:16 ou 1:8, porque o desempenho aumenta se a divisão for menor.
Atenção à distância total
Quanto maior o split, maior a perda óptica introduzida, o que pode inviabilizar links mais longos. Então sempre faça o cálculo para determinar APROVADO ou REPROVADO.
Boas Práticas em Projetos GPON/PON LAN
Divisão escalonada (split cascata, ou seja, dois em sequência) só se for justificada tecnicamente — pode ser mais difícil de manter pela complexidade maior.
Nunca extrapole os limites de split da OLT (algumas suportam 1:64, mas com limitações).
Realize testes OTDR e Power Meter após a instalação.
Faça documentação completa: diagramas de rede, planilhas de splitters, mapa de fusões, etiquetas nos cabos.
Prefira infraestrutura dedicada à fibra, evitando compartilhamento com rede elétrica ou metálica.
A Síndrome do cliente que quer reduzir custos (pagar mais barato)
Essa síndrome se manifesta quando o cliente prioriza o menor preço acima da viabilidade técnica, qualidade ou da durabilidade da solução. Não “enxerga” o valor da solução.
Quer utilizar cabos, conectores genéricos. Marcas não conhecidas, não comprovadas.
Propõe reduzir a quantidade de splitters ou aumentar o split ratio (ex: 1:64) sem avaliar a perda óptica ou perda do desempenho de transmissão.
Ignora a importância de testes (como OTDR) ou documentação de rede.
Consequência: o projeto se torna frágil, instável, com baixa performance e difícil de manter. No médio prazo, o barato sai caro: retrabalhos, downtime (paradas) e insatisfação do usuário final.
A síndrome do vendedor que reduz qualidade para fechar o projeto
Do lado comercial, essa síndrome aparece quando o vendedor, pressionado para bater metas ou agradar o cliente, aceita soluções fora do padrão técnico:
Oferece OLTs ou ONTs sem certificação, não confiáveis ou pouco configuráveis.
Propõe topologias com perdas acima do limite permitido.
Ignora recomendações como uso de fibra G.652.D, ou splitters de baixa perda.
Consequência: o projeto até pode sair mais barato, mas compromete a reputação da empresa que instala, gera chamados constantes e pode até ser descartado antes de atingir sua vida útil.
Como superar estas síndromes?
Educação do Cliente: Mostrar os impactos técnicos e econômicos de decisões mal dimensionadas. Use dados como cálculos de perda óptica ou largura de banda por usuário (como no documento) para fundamentar.
Postura Técnica-Firme: O vendedor ou integrador deve recusar projetos que comprometam a qualidade. Propor ajustes viáveis, como fases de implantação.
Documentação e Transparência: Apresentar claramente os itens cortados e suas consequências.
Conclusão
Um projeto GPON ou PON LAN de qualidade depende de uma série de fatores técnicos: desde o levantamento da demanda e escolha de equipamentos até os cálculos rigorosos de perdas ópticas e divisão de sinal. O dimensionamento correto da razão de split, com base na largura de banda e nas características da rede, é essencial para garantir estabilidade e performance.
Redes ópticas bem projetadas são escaláveis, duráveis (20 anos ou mais), e representam um investimento estratégico para empresas, campi universitários, hotéis, hospitais e smart buildings.