Revista Carreiras TI
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Jony Zatariano
Colunista

Jony Zatariano

Hobbies que Inspiram e Constroem

Jony Zatariano é um líder em marketing com sólida experiência internacional. Atuando como Head de Marketing em uma multinacional japonesa com mais de 130 anos de história, liderou a criação de centros globais de suporte e treinamento para a Furukawa, impulsionando a capacitação técnica em diversos países. Com dois MBAs – um em Estratégia de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e outro em China Business & Economic Strategies for Managers pela The Chinese University of Hong Kong – alia conhecimento estratégico à aplicação prática em ambientes altamente desafiadores

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Hobbies que Inspiram e Constroem

O líder que sabe acelerar também precisa saber frear

Existe uma cena muito comum para quem anda de motocicleta: uma estrada aberta, boas condições de pilotagem e a sensação de que é possível acelerar um pouco mais. O motor responde, a paisagem passa mais rapidamente e surge aquela impressão de que ganhar velocidade é sinônimo de aproveitar melhor o caminho. Mas quem tem alguma experiência sabe que pilotar bem não significa andar o mais rápido possível. Significa saber quando acelerar, quando reduzir, quando fazer uma curva com mais cuidado e, principalmente, quando parar.

Pode parecer apenas uma questão relacionada à segurança. Na verdade, existe nessa experiência uma metáfora bastante poderosa para a liderança.

O mundo corporativo muitas vezes só sabe valorizar o líder que consegue fazer sua equipe acelerar. Metas mais ousadas, prazos menores, mais produtividade, mais projetos, mais entregas. A lógica parece simples: se os resultados são bons, aumentar a velocidade irá produzir resultados ainda melhores.

O problema é que pessoas não são motores.

Uma máquina pode ser programada para trabalhar em determinada velocidade durante determinado período, porém se a máquina for além do seu limite, ela quebra. Pessoas carregam emoções, expectativas, inseguranças, histórias, responsabilidades e diferentes níveis de energia. Quando uma organização transforma aceleração em padrão permanente de gestão, aquilo que inicialmente parecia uma estratégia de alta performance pode se transformar em desgaste.

E talvez essa seja uma das grandes questões da liderança na era da IA (Inteligência Artificial): será que estamos confundindo velocidade com evolução?

Tenho percebido que muitos líderes não têm dificuldade para acelerar. Sabem estabelecer metas, cobrar resultados, criar urgência e mobilizar equipes diante de desafios. O que nem sempre sabem fazer é frear.

Frear não significa acomodar. Também não significa diminuir a ambição, aceitar resultados ruins ou abandonar a busca por produtividade.

Frear, na liderança, significa desenvolver a capacidade de perceber o momento em que insistir na aceleração começa a comprometer aquilo que se pretende alcançar. Um motociclista experiente não reduz porque deixou de gostar da viagem. Ele reduz porque quer continuar nela.

Nas empresas, essa diferença é fundamental.

Há momentos em que uma equipe precisa ser desafiada. Precisa sair da zona de conforto, experimentar novas soluções e assumir responsabilidades maiores. Existem situações em que a urgência é legítima e em que a velocidade de resposta pode determinar o sucesso ou o fracasso de um projeto.

Mas também existem momentos em que a melhor escolha que um líder pode fazer é parar.

Parar para ouvir. Parar para entender. Parar para reconhecer que uma decisão tomada meses atrás já não faz sentido. Parar para perguntar se as pessoas compreenderam o propósito daquele esforço. Parar para perceber que determinado profissional, que sempre entregou muito, talvez esteja chegando ao seu limite.

Esse tipo de pausa exige uma competência que nem sempre aparece nos indicadores de desempenho: autoconsciência.

O líder precisa conseguir observar não apenas o mercado, os números e os concorrentes, mas também o impacto de seu próprio comportamento sobre as pessoas.

É relativamente fácil perceber quando uma empresa está crescendo. Mais difícil é perceber quando está crescendo às custas de uma equipe exausta. É fácil comemorar uma meta alcançada. Mais difícil é perguntar qual foi o preço daquela conquista.

É fácil pedir mais esforço. Mais sofisticado é descobrir o que precisa mudar para que o resultado seja alcançado de maneira mais inteligente. Essa é uma mudança importante na forma de pensar liderança.

O líder do passado muitas vezes era avaliado pela capacidade de obter respostas rápidas de sua equipe. O líder que precisamos desenvolver agora precisa também saber formular perguntas melhores.

“Quanto ainda conseguimos entregar?” é uma pergunta legítima.

Mas talvez seja ainda mais importante perguntar:

“Estamos trabalhando da melhor maneira possível?”

“Estamos desenvolvendo as pessoas enquanto entregamos resultados?”

“Estamos criando dependência ou autonomia?”

“Se continuarmos trabalhando dessa maneira pelos próximos dois anos, que tipo de equipe teremos?”

Essa última pergunta talvez seja especialmente desconfortável. Porque uma liderança pode produzir resultados extraordinários no curto prazo e, ao mesmo tempo, construir uma equipe frágil no longo prazo.

Uma empresa pode bater suas metas e perder profissionais importantes, aumentar sua produtividade e diminuir o engajamento, acelerar projetos e reduzir a qualidade das relações, entregar mais e desenvolver menos.

É por isso que considero importante ampliar a discussão sobre performance. Performance não deveria ser medida apenas pelo que uma equipe entrega, mas também pela capacidade que ela desenvolve para continuar entregando.

Esse conceito muda o papel do líder, e ele deixa de ser apenas o responsável por pressionar o sistema e passa a ser também responsável por cuidar da capacidade do sistema.

Pense em um motociclista que realiza uma longa viagem. Não basta verificar a velocidade da motocicleta, é necessário observar combustível, pneus, condições da estrada, clima, corpo, concentração e planejamento. Uma viagem de milhares de quilômetros não é vencida em uma única arrancada. Ela é construída quilômetro a quilômetro e por decisões sucessivas.

Nas carreiras acontece algo semelhante. Não existe trajetória profissional sustentável quando toda semana precisa parecer uma corrida contra o tempo. Carreiras são construídas por ciclos de esforço, aprendizagem, recuperação, reflexão e novas decisões.

O mesmo vale para equipes.

Talvez uma das maiores responsabilidades de um líder seja justamente ajudar as pessoas a compreenderem que produtividade não é estar ocupado o tempo inteiro. Há uma diferença enorme entre movimento e progresso.

Uma pessoa pode passar o dia inteiro respondendo mensagens, participando de reuniões, apagando incêndios e mudando de uma tarefa para outra sem produzir nada daquilo que realmente importa. Uma equipe pode estar extremamente ocupada e, ainda assim, pouco produtiva.

Nesse cenário, talvez o problema não seja falta de esforço. Talvez seja falta de direção. É nesse cenário que a liderança ganha uma dimensão estratégica.

O líder precisa olhar para o caminho, não apenas para o velocímetro. Precisa saber o que merece velocidade e o que merece atenção. Precisa compreender que nem toda urgência é estratégica e que nem toda atividade importante precisa ser feita imediatamente.

Precisa criar uma cultura em que as pessoas tenham coragem para sinalizar riscos antes que eles se transformem em problemas, e precisa entender que reduzir a velocidade de vez em quando não significa perder competitividade.

Em um mercado cada vez mais veloz, a capacidade de parar para pensar pode se tornar uma vantagem competitiva.

A inteligência artificial acelera processos. A tecnologia acelera comunicação. A informação circula em segundos. As decisões precisam ser tomadas em ambientes cada vez mais complexos.

Nesse contexto, talvez a diferença entre uma empresa e outra não esteja apenas em quem consegue acelerar mais, mas pode estar em quem sabe quando acelerar.

Essa distinção é fundamental.

Porque velocidade sem direção, apenas faz você chegar mais rápido ao lugar errado, e liderança não deveria ser sobre fazer pessoas correrem mais. Deveria ser sobre ajudá-las a avançar melhor.

Talvez seja essa a pergunta que cada líder deveria levar para a próxima reunião: Minha equipe está cansada porque estamos crescendo ou porque ainda não aprendemos a liderar o crescimento?

A resposta pode revelar muito mais sobre o modelo de liderança de uma empresa do que qualquer indicador de desempenho.

No motociclismo, saber acelerar é importante, mas saber frear pode ser ainda mais importante. Na liderança, não é diferente.

 

 

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