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Jony Zatariano
Colunista

Jony Zatariano

Hobbies que Inspiram e Constroem

Jony Zatariano é um líder em marketing com sólida experiência internacional. Atuando como Head de Marketing em uma multinacional japonesa com mais de 130 anos de história, liderou a criação de centros globais de suporte e treinamento para a Furukawa, impulsionando a capacitação técnica em diversos países. Com dois MBAs – um em Estratégia de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e outro em China Business & Economic Strategies for Managers pela The Chinese University of Hong Kong – alia conhecimento estratégico à aplicação prática em ambientes altamente desafiadores

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Hobbies que Inspiram e Constroem

O Futebol! Muito Além do Jogo

Existem hobbies que entretêm, outros que conectam pessoas, e existem aqueles que ajudam a construir a identidade de uma sociedade inteira.

No Brasil, poucos elementos carregam tanta força cultural, emocional e simbólica quanto o futebol. Mais do que um esporte, ele se tornou parte da construção da nossa própria identidade como nação. Está presente nas conversas de família, nas amizades de infância, nas lembranças que atravessam gerações e até mesmo na maneira como aprendemos o significado de pertencimento, competição, resiliência e paixão coletiva.

Talvez nenhum outro hobby seja tão democrático quanto o futebol, pois ele não exige grandes estruturas para existir. Basta um simples espaço vazio, talvez com quatro pedras e uma bola improvisada e às vezes com uma sandália Havaianas que se arrebentou e saiu voando junto com o chute (quem nunca?), ou quem sabe em uma rua fechada no final de semana, uma quadra no próprio bairro ou até mesmo em um campo profissional lotado, pode ser qualquer lugar onde alguém decide transformar uma bola em ponto de encontro. O primeiro aprendizado do futebol, não é sobre os recursos disponíveis, mas sobre o que fazemos com aquilo que temos em mãos, é sobre vontade e criatividade.

Desde o início do século XX, quando foi introduzido no Brasil, o futebol deixou rapidamente de ser apenas uma prática esportiva para se tornar uma linguagem universal capaz de conectar um país marcado por diferenças regionais, desigualdades sociais e uma diversidade cultural imensa. Poucos elementos conseguem unir tantas pessoas diferentes em torno de uma mesma emoção. E talvez seja por isso que o futebol ocupa um espaço tão singular dentro da cultura brasileira.

Podemos até arriscar a dizer, que o Brasil aprendeu a se reconhecer através do futebol.

Nos grandes centros urbanos, nas periferias, nas pequenas cidades do interior e nas grandes capitais, milhões de brasileiros cresceram associando o futebol a sonhos. Para muitos, foi uma oportunidade de ascensão social, para outros, tornou-se um espaço de construção de amizades, desenvolvimento pessoal e senso de comunidade. Para todos, em algum momento, ele representou conexão.

Existe algo profundamente interessante na forma como o brasileiro joga futebol. Enquanto muitos países desenvolveram estilos altamente técnicos e previsíveis, o futebol brasileiro sempre carregou o improviso, a criatividade, a espontaneidade, a habilidade individual e a capacidade de adaptação em situações imprevisíveis. Curiosamente, esses mesmos atributos são exatamente aqueles que hoje definem profissionais preparados para ambientes complexos, cenários de constante transformação e mercados que exigem cada vez mais pensamento criativo. Talvez sem perceber, gerações inteiras aprenderam conceitos fundamentais de desenvolvimento humano simplesmente vivendo o futebol.

No futebol, aprendemos a lidar com derrotas, aprendemos que só talento não sustenta resultados, aprendemos que nenhuma estrela individual vence sem um time funcionando em conjunto, aprendemos que estratégia importa tanto quanto execução, e que persistência continua sendo um dos ativos mais valiosos em qualquer jornada.

Não por acaso, nomes como Pelé, Garrincha, Ronaldo Nazário e Marta deixaram de representar apenas excelência esportiva. Tornaram-se símbolos nacionais, referências de superação, inspiração coletiva e expressão máxima do talento brasileiro reconhecido globalmente.

Mas a força do futebol não termina dentro do campo, ela influencia a economia de maneira impressionante. Hoje, a cadeia completa do futebol no Brasil movimenta mais de cinquenta bilhões de reais anualmente, representando aproximadamente 0,7% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. Clubes, transmissões televisivas, plataformas digitais, turismo esportivo, publicidade, patrocínios, venda de produtos oficiais (nem sempre, risos), criação de conteúdo, cobertura jornalística e grandes eventos fazem do futebol um dos setores econômicos mais relevantes do país.

Aquilo que muitos enxergam apenas como entretenimento sustenta uma gigantesca cadeia produtiva que gera empregos, impulsiona negócios e movimenta investimentos em diversas áreas.

Mas talvez a dimensão mais fascinante do futebol esteja em algo que não pode ser medido em números, está nas experiências que ele cria.

Acompanhar campeonatos nacionais e internacionais, assistir à copa do mundo, transformar dias comuns em momentos históricos, vestir a camisa do time do coração e sentir que aquilo representa parte da própria identidade, frequentar estádios lotados onde desconhecidos se tornam aliados por noventa minutos, colecionar camisas, figurinhas, álbuns e memórias, jogar com amigos em uma quadra qualquer e perceber que o resultado é quase sempre secundário perto das conexões que são criadas, criar conteúdos, gravar vídeos, discutir partidas, analisar estratégias, fotografar momentos únicos, tudo isso revela algo importante, o futebol não existe apenas para ocupar tempo livre, ele molda comportamentos, constrói comunidades, desenvolve competências emocionais, fortalece identidade.

Tenho escrito constantemente nesta coluna sobre como hobbies exercem um papel muito maior do que normalmente percebemos. O futebol talvez seja um dos exemplos mais poderosos dessa construção coletiva. Porque ele carrega algo raro, a capacidade de unir pessoas em torno de emoções genuínas.

Em um mundo cada vez mais acelerado, hiperconectado digitalmente e paradoxalmente mais individualista, o futebol continua reunindo pessoas em torno de uma única emoção, lembrando que nenhuma grande conquista acontece sozinha, que todo resultado depende de estratégia, disciplina, treinamento, e capacidade de ser uma equipe. Talvez seja exatamente essa a grande lição escondida dentro do esporte mais amado do Brasil.

Muitas pessoas acreditam que o futebol ensina a vencer, eu acredito que ele ensina algo ainda mais importante, ele ensina a construir.

E no final, seja dentro dos negócios, da liderança, da vida pessoal ou de qualquer grande projeto, construir continua sendo uma habilidade infinitamente mais valiosa do que simplesmente ganhar. Porque vencer pode ser momentâneo, mas construir é permanente.

Enquanto pesquisava e escrevia esse artigo, vi que o futebol dialoga com algo que sempre defendo, que os hobbies não são só momentos de distração, mas sim elementos que ajudam a construir quem somos.