Psicólogo Wislen Paiva
Aprendiz de Psicologia(Escritor, poeta, compositor, músico e discente de Psicologia. Especializando em musicoterapia).
LinkedInAS ATLETAS VÍTIMAS DE ABUSOS NOS ESPORTES
AS ATLETAS VÍTIMAS DE ABUSOS NOS ESPORTES
Por Wislen Paiva Vasconcelos
CRP – 11/19961
No mundo dos esportes tem muitos atletas vencedores, alguns são ídolos, uns hoje vivem num mundo de glamour e ostentação, com toda a beneficie de quem chegou no topo, mas até chegar neste estágio e estar em alto nível para competir, ter o sucesso merecido que são as consequências ou benefícios de quem está no auge, perpassa por uma vida de cobranças internas e externas, onde desde muito pequenos estes jovens são exigidos ao máximo, tanto na saúde física como também na saúde mental.
E estes atletas, hoje símbolos e espelhos para muitos que estão iniciando em suas carreiras, estão trazendo à tona o quanto foi importante para eles terem tido durante suas vidas todo o suporte familiar e psicológico, e aqueles que puderam estar com acompanhamento terapêutico, foram de uma certa maneira privilegiados dentro do contexto que estavam inseridos, tendo assim uma certa qualidade em suas vidas para que conseguissem chegar com alto nível em suas carreiras.
Hoje em dia, para não surtar ou desmoronar, estes atletas que vivem numa cobrança extrema, com muitas exigências para atingir o máximo sempre, tentam de toda maneira não demonstrar, para quem está apenas à frente de sua tv, vendo as apresentações e performances, assim como também para todos os colegas de equipe e para a própria família, por que para todos os efeitos eles estão bem, devem estar bem, e todos ficam sem ter a mínima ideia de tudo que eles(as) passaram ou estão passando, seus sentimentos e emoções, frustrações, gatilhos, dores e o quanto eles vem travando em sua batalha interna, para estarem em suas apresentações impecáveis, até chegar a algum pódio, batendo recordes em seus esportes, fazendo o seu papel a todo e qualquer custo, que precisa ser feito.
Veja o caso de Simone Ariane Biles (1997), mega vencedora campeã olímpica pelos Estados Unidos, considerada uma das melhores ginastas de todos os tempos, que também foi uma das vítimas do médico Lawrence Gerrard Nassar (1963), conhecido como Dr. Larry Nasser, que era da Equipe Nacional da Federação de Ginastica dos Estados Unidos, ele, que abusou e molestou durante 20 anos diversas ginastas da equipe americana, tendo ao todo quase 150 denúncias contra ele, existe uma estimativa de que as vítimas dele podem chegar a mais de 400 meninas. Chelsea Markham (1985-2009) foi uma de suas vítimas, que infelizmente aos 14 anos se suicidou depois de ter largado o esporte e enveredado por vários problemas com drogas e de relacionamentos, após ter sido vítima do médico, várias dessas meninas foram afetadas e começaram a desenvolver transtornos psicológicos por verem seus sonhos frustrados, depressão, ansiedade, stress pós-traumáticos, os abusos Dr. Larry, até que ele foi condenado a 60 anos de prisão, mas apesar dele ter sido pego, denunciado, preso e condenado suas vítimas ficaram com diversas sequelas psicológicas e isso nunca vai ser apagado da vida delas.
No caso da Simone Biles, que estava participando das Olimpíadas de Tóquio no Japão em 2021, quando desistiu de continuar disputando, alegando que precisava cuidar de sua saúde mental, ela, já era quatro vezes medalhista de ouro naquelas olimpíadas, e prestes a participar da finalíssima na ginastica por equipe, onde tinha tudo para ganhar sua quinta medalha, quando fez aquele desabafo. Trazendo à tona suas queixas e todas essas questões, fazendo assim que o mundo passasse a olhar com mais atenção para este fenômeno, que antes era tão estigmatizado, e graças a isso, muitos outros famosos de vários nichos começaram também a falar sobre este assunto, atores, cantores, atletas, entre outros, afirmando a necessidade da terapia na vida deles e o que isso trouxe de positivo, além de potencializar uma corrida em busca dos cuidados da saúde mental tão necessários.
Afinal, atualmente cuidar da saúde mental está em alta, poderia dizer alguns, e para muitos isso é pura “frescura” ainda, mas antes, nunca tinha sido visto de forma alguma, algo parecido no mundo dos esportes, principalmente, trazido por uma de suas estrelas do momento, Simone era na época a principal estrela dos Estados Unidos (e ainda hoje é), ela que tinha uma aceitação enorme entre os atletas, não só por ser uma super vencedora, mas, principalmente ser um exemplo para muitos, por sua dedicação, compromisso e sucesso, ela estava ali, mostrando todas as suas fragilidades, e essas tais fragilidades adquiridas, foram expostas durante um evento de máxima grandeza e com repercussão mundial. Isso poderia ser algo muito ruim, mas teve um revés no final, a conscientização de muitos da necessidade de cuidados com a saúde mental, a necessidade de acompanhamento psicológico, e em alguns casos psiquiátrico.
"Eu não confio mais tanto em mim mesma. Talvez seja o fato de estar ficando mais velha. Não somos apenas atletas. Somos pessoas, afinal de contas, e às vezes é preciso dar um passo atrás". Simone Biles, 2021.
Ás vezes fico pensando sobre outros tempos, outras épocas, em que alguns atletas vencedores (as) ou não, que iniciam ainda crianças, neste mundo tão competitivo, onde muito cedo, já estão em olimpíadas, viajando pelo mundo, longe da família, onde alguns já vinham sofrendo abusos psicológicos e até sexuais, e tendo que vencer e sorrir para muitos em silêncio constrangedor. Um dos ícones da ginastica olímpica foi Nádia Elena Comãneci (1961) atleta romena, ela começou a treinar ainda aos 6 anos de idade, sua primeira olimpíada foi a de Montreal no Canadá em 1976 com seus 15 anos, suas técnicas e movimentos até hoje são tidos como os melhores de todos os tempos, quebrou vários recordes na época. Hoje, ela é naturalizada cidadã dos Estados Unidos, na época foi a maneira que achou para fugir do regime comunista da Romênia e toda a opressão que existia por lá.
Por sorte, Nádia diz não ter passado por transtornos que muitas ginastas como ela passaram, assim como passou Simone e outras tantas pelo mundo, no Brasil também não foi diferente e um dos casos muito falado foi na equipe de natação olímpica, a ex-atleta Joanna de Albuquerque Maranhão Bezerra de Melo (1987), que aos 11 anos em 1998 já brilhava na natação brasileira, teve sua primeira participação em eventos internacionais nos Jogos Panamericanos de Winnipeg no Canadá em 1999, mas só em 2003 nos Jogos Panamericanos de Santo Domingo na República Dominicana que ela ganhou sua primeira medalha, no caso um bronze no 400 medley, e sua primeira olimpíada foi em Atenas na Grécia em 2004. Ela que denunciou os abusos sofridos pelo treinador de sua equipe olímpica de natação e por causa dela e dessas denúncias, foi decretado uma lei que leva seu nome, Lei Joana Maranhão 12650/2012 que alterou o artigo 111 do código penal brasileiro, acrescentando nele o inciso V.
Art. 111 – A prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, começa a correr:
(…)
“V – nos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes, previstos neste Código ou em legislação especial, da data em que a vítima completar 18 (dezoito) anos, salvo se a esse tempo já houver sido proposta a ação penal. (Redação dada pela Lei nº 12.650, de 2012)”
E apesar de ter sido vítima desde os 9 anos de idade, Joana ainda enfrentou um processo judicial do próprio abusador contra ela. Segundo Wilson Zaska, o abuso sexual infantil é um dos assuntos mais difíceis e sensíveis de se tratar em qualquer âmbito da sociedade, seja nas Escolas, no Esporte, dentro de casa ou até mesmo no Direito Penal e nas leis correlatas que abordam o tema. Mas, apesar do cuidado necessário à condução do assunto, ele deve ser amplamente divulgado por todos os canais possíveis, a fim de que todos tenham acesso sobre como evitar, como denunciar e como levar a cabo a responsabilização dos autores de qualquer tipo de abuso infantil.
O canal CNN lançou um documentário sobre “Abusos na Natação”, trazendo vários relatos sobre os crimes cometidos nas equipes de natação pelo mundo, iniciando pela equipe americana com desdobramentos na equipe brasileira. Foram décadas de traumas e investigações inconclusivas onde afetaram diversas crianças que sempre tiveram em seus sonhos, serem atletas olímpicas, mas sofreram de todo tipo de abusos em situações incomuns dentro de seu ambiente.
Enfim, hoje com o grito de socorro mais amplificado e que reverberou dentro das sociedades em todo o mundo, graças as atletas que tiveram coragem de denunciar o que vinham sofrendo em silêncio, a psicologia vem sendo inserida cada vez mais nos esportes, fazendo parte da equipe multidisciplinar das equipes, além de muitos deles também terem seus acompanhamentos terapêuticos particulares. Nesta última Olimpíada, já recuperada Simone Balis voltou, participou dos jogos com toda sua qualidade e competência, e mesmo não sendo vencedora em todas as competições que participou, estava lá em alto nível, com suas performances brilhantes, nesta olimpíada tivemos nossa atleta brasileira Rebeca Rodrigues Andrade (1999), que ao ganhar o ouro em uma das provas, foi homenageada e reverenciada no pódio pela própria Simone, que ficou em segundo lugar. Rebeca que também faz terapia com sua psicóloga a alguns anos, afirma que se fortaleceu muito para poder continuar atuando em um nível que a favorecesse, encontrou seu equilíbrio para estar bem dentro das competições.
O que é a psicologia nos esportes? Um estudo do comportamento humano e todos os seus contextos e variáveis na prática de exercícios, tendo sua ênfase na relação do corpo, mente e ambiente dos que praticam atividades físicas e ou competem em eventos onde a atividade física é exigida, não escapando nada nem do individual e nem do coletivo, tendo como foco em aumentar o grau de prazer e a maestria em suas performances, para que o indivíduo dê o seu melhor, e também sentindo-se melhor para isso, aliviando as sensações de ansiedade e tensão trazida pelas cobranças e pressões constantes, acalmando, acolhendo, motivando e tranquilizando o atleta para que ele consiga desempenhar sem os gatilhos que podem travar, segurar e ou desanimar o suficiente para não conseguir um bom desempenho. Com a melhoria do mental do atleta, se vê por consequência a confiança nos aspectos físicos, motoros e mentais, onde fica visível o desenvolvimento de si próprio, para vencer enfim suas dificuldades, alavancando o desempenho e as suas virtudes chegando no objetivo final. O psicólogo nos esportes podem ajudar os atletas a lidar com tudo aquilo que podem estar desestabilizando-os e influenciando nos seus desempenhos, alguns fatores podem ser os gatilhos para toda desconstrução das performances de cada atleta, tais como: a morte de um ente querido, final de relacionamento, uso de drogas ou bebidas, mudanças de eventos, e até uma lesão.
Nos casos de abusos sofridos pelos atletas a psicologia vai ajudar nos controle dos transtornos adquiridos pelo fenômeno, com a escuta qualificação, contribuindo para identificação das situações de violência e uma busca pelo equilíbrio, identificando o caminho certo a seguir para que ele consiga lidar com a situação, de uma maneira menos desconfortável.
Em caso de abusos denuncie o quanto antes for possível e procure ter acompanhamento terapêutico.
REFERÊNCIAS
Roseiro, Bruno. Larry Nasser, A história do Monstro que Abusou de Centenas de Atletas Durante 20 Anos. Brasil, 2018. www.observador.com.br disponível em/; https://observador.pt/especiais/larry-nassar-a-historia-do-monstro-que-abusou-de-centenas-de-atletas-durante-mais-de-20-anos/ acesso em 16/11/2024 as 13h
Como Voce Dorme à Noite? São Paulo-SP, 2018. www.uol.com.br Disponivel em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/01/23/como-voce-dorme-a-noite-atletas-depoem-em-julgamento-de-medico-abusador.htm acesso em 16/11/2024 as 14h
Simone Balis: O Desabafo da Campeã Olímpica ao Desistir de Final em Tóquio. Brasil, 2021. www.bbc.com Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-57990804
acesso em 26/11/2024 as 10h
Joana Maranhão Desabafa 10 Anos Após Ser Processado Por Acusado de Abuso. Brasil, 2018. www.revistamarieclaire.globo.com Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2018/05/joanna-maranhao-desabafa-10-anos-apos-denunciar-abuso-sexual.html acesso em 26/11/2024 as 11h
Zaska, Wilson. Lei Joana Maranhão. Brasil, 2024. www.aurum.com.br Disponível em: https://www.aurum.com.br/blog/lei-joanna-maranhao/ acesso em 26/11/2024 as 11h
Negrão, Ivana; Kampff, Andrei. Assédio no Esporte: A Natação Brasileira Precisa Falar Disso. Brasil, 2020. https://www.uol.com.br/esporte/colunas/lei-em-campo/2020/10/22/assedio-no-esporte-a-natacao-brasileira-precisa-falar-disso.htm
Psicologia do esporte: Qual o Objetivo e Áreas de Atuação. Brasil, 2022. www.blog.eurekka.me Disponível em: https://blog.eurekka.me/psicologia-do-esporte/ acesso em 26/11/24 12h