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Psicólogo Wislen Paiva
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Psicólogo Wislen Paiva

Aprendiz de Psicologia

(Escritor, poeta, compositor, músico e discente de Psicologia. Especializando em musicoterapia).

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O Mito de Sísifo

O Mito de Sísifo

Por Gleice Soares Magalhães (Graduanda em Psicologia pelo Campus Uninta Itapipoca) e Wislen Paiva Vasconcelos Psicólogo Clínico CRP – 11/19961

O mito de Sísifo, um personagem da mitologia grega, um cara muito inteligente e esperto, o mais astuto e malicioso entre os mortais, ele que sempre leva vantagem em tudo e sobre todos, (parece até ter nascido no Brasil atual, “onde o mundo é dos espertos”, “onde levar vantagem é a única coisa importante pra cada um”, mesmo que com isso você passe por cima e desfaça do outro, zero empatia), então resumindo Sísifo, ele era ´o protótipo do verdadeiro “malandro”, sempre foi um cara muito inteligente e esperto, e sempre aprontava, e aprontava, foi rei de Corinto, malicioso e astuto, ele era tão esperto que enganou a morte algumas vezes.

A primeira esperteza de Sísifo foi quando Tanâtos (que era a personificação da morte no submundo, enquanto Hades reinava sobre os mortos no mundo inferior, sendo filho de Nix (a noite) e Êrabo (a escuridão) que eram filhos do Caos, Tanâtos era gêmeo com Hipno que era a personificação do sono) Tanâtos veio buscar Sísifo a mando de Zeus, que havia se irritado com Sísifo, mas ele prendeu Tanâtos em correntes e com isso fez com que durante um tempo ninguém mais morresse no mundo, quando esteve no submundo ele enganou Perséfone (rainha do submundo, é a deusa da agricultura, das flores e frutos, uma das filhas de Zeus, que após ser raptada por Hades virou a rainha dos mortos, passava a metade do ano no olimpo e a outra metade no submundo), e Sísifo acabou voltando para o mundo dos vivos. Até que Zeus entregou finalmente a Hades o trabalho de levar Sísifo, que pediu a sua esposa que não enterrasse e nem fizesse velório etc, Hades libertou Tanâtos e levou Sísifo para a mansão dos mortos, chegando lá Sísifo foi falar com Hades dizendo que sua esposa o havia traído, faltado com respeito e não havia feito seu funeral e o enterrado e pediu mais 1 dia para Hades, afim de ir se vingar de sua esposa, Hades concedeu este desejo, Sísifo retornou para o mundo dos mortos e fugiu com sua esposa enganando mais uma vez a morte, pense num cabra esperto por demais, então para finalizar Zeus impôs a ele uma sentença que ele rolasse uma pedra de mármore ao topo de um morro e sempre que chegasse lá a pedra voltava ao início rolando morro a baixo e ele teria que voltar e empurrar a pedra de novo toda vez que isso acontecesse e isso iria acontecer eternamente, sendo um castigo para todo o sempre.

Albert Camus (1913/1960), filósofo francês, Prêmio Nobel de literatura em 1957, trouxe o mito de Sísifo em seu ensaio filosófico de 1942, trazendo a filosofia do absurdo, o homem em busca de sentido, ele questiona que o homem na realização do absurdo, ele pode ser exigido ao suicídio? Ao qual ele mesmo responde que não, e sim uma revolta, já que segundo ele ao analisar Sísifo, todo o esforço feito por meio da força e inteligência usada para rolar a pedra ao topo do morro é invalidado e inutilizado por que ela volta rolando ao início da jornada e ele tem que fazer tudo outra vez, isso é mais ou menos o sentido da labuta diária, do trabalho ao qual temos que fazer diariamente em prol do nosso sustento e da família, para com isso termos os frutos financeiros deste desprendimento árduo e poder termos o direito de viver socialmente, pagando e honrando os compromissos firmados, como aluguel, comida, roupas, sapatos, remédios, energia, água, internet entre outras coisas, para Camus Sísifo passa a ser feliz, mas quando ele aceita a tarefa como dele, e que o esforço por mais chato, pesado e repetitivo é o que dá sentido à existência, e que aquele trampo é dele e é o que dá sentido à vida, que o que importa é a jornada, é o caminho, no processo do trabalho, mas, a nova geração acha que tudo isso é desnecessário e que não resulta em grande coisa alguma, e que não nasceram pra isso, afinal não pediram pra nascer, sendo assim qual a obrigação deles nisso?

Cada geração é constituída por um conjunto específico de valores, expectativas e formas de comportamento, os quais são historicamente determinados pelas condições culturais, sociais e tecnológicas de seu tempo. Nesse sentido, a Geração Z, (composta por indivíduos nascidos entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010), caracteriza-se por ser a primeira geração plenamente inserida no ambiente digital desde a infância, tendo sido socializada em meio à internet, às redes sociais e à aceleração das transformações tecnológicas.

Tal contexto de formação produziu novas formas de sociabilidade, de acesso à informação e de construção identitária, ao mesmo tempo em que introduziu desafios significativos no que se refere à consolidação de vínculos duradouros, à tolerância à frustração e à organização de projetos de vida de longo prazo. Nesse cenário, a relação dessa geração com o mundo do trabalho tem se configurado como objeto de crescente interesse nos campos acadêmico, midiático e cultural.

Expressões amplamente difundidas nas redes sociais, como “não nasci para trabalhar” ou “não pedi para nascer”, ainda que não representem a totalidade da geração, indicam transformações relevantes nos sistemas de valores que estruturam a vida social contemporânea. A compreensão desse fenômeno exige, contudo, o afastamento de interpretações moralizantes, sendo necessário recorrer a instrumentos analíticos capazes de considerar tanto as condições objetivas quanto os aspectos subjetivos envolvidos.

Nesse contexto, torna-se fundamental distinguir, do ponto de vista analítico, dois fenômenos frequentemente confundidos no debate público. O primeiro refere-se a uma crítica potencialmente legítima à centralidade do trabalho como eixo organizador da existência, especialmente no interior de uma lógica produtivista que reduz o sujeito à sua capacidade de produzir. O segundo diz respeito às dificuldades de engajamento em processos que exigem esforço contínuo e prolongado, independentemente do campo de atuação, o que aponta para dimensões psicológicas e culturais mais complexas.

Sob essa perspectiva, a recusa ao trabalho nem sempre se configura como uma posição crítica consciente, mas pode ser compreendida como um sintoma de um ambiente cultural que privilegia a gratificação imediata, a visibilidade e a lógica do reconhecimento instantâneo. A valorização exacerbada do sucesso rápido, frequentemente mediado pelas redes sociais, tende a obscurecer a importância de processos graduais, cumulativos e, muitas vezes, invisíveis de construção profissional e existencial.

A culpabilização dos pais, em particular, é um fenômeno que merece atenção clínica e sociológica. Do ponto de vista psicanalítico, ela pode ser compreendida como uma forma de externalização da responsabilidade diante do sofrimento uma dificuldade de assumir a própria vida. Do ponto de vista sociológico, contudo, ela também revela as tensões reais de uma geração que foi criada sob promessas de infinita possibilidade e se depara com os limites estruturais de uma sociedade marcada pela desigualdade e pela precarização das condições de vida.

Nesse sentido, a promoção da saúde mental da Geração Z passa não apenas pelo cuidado individual embora o acesso à psicoterapia seja fundamental, mas também pela construção de narrativas culturais mais honestas sobre o processo de crescimento, o valor do esforço e a legitimidade das trajetórias comuns, portanto se percebe que a nova geração vem normalizando e “gourmetizando” o sucesso sem trabalho e sem talento.

A lacuna entre as expectativas criadas pela cultura digital e as possibilidades concretas de cada indivíduo produz, com frequência, sentimentos intensos de frustração, inadequação e fracasso. Quando essas frustrações não encontram elaboração psicológica adequada seja por meio da terapia, de relações afetivas saudáveis ou de práticas reflexiva, tendem a se converter em mecanismos de culpabilização: do outro, das instituições, dos pais, da sociedade.

Essa dinâmica pode ser interpretada à luz do conceito de modernidade líquida, desenvolvido por Zygmunt Bauman, que descreve a passagem de uma sociedade marcada por estruturas estáveis e duradouras para um contexto caracterizado pela fluidez, pela instabilidade e pela fragilidade dos vínculos sociais. Nesse cenário, compromissos de longo prazo passam a ser percebidos como restritivos, na medida em que limitam a flexibilidade e a abertura a novas possibilidades valores centrais na cultura contemporânea.

Paralelamente, a expansão das plataformas digitais transformou profundamente os modos de produção, circulação e consumo de cultura. No interior da chamada economia da atenção, a visibilidade converte-se em um recurso central, sendo mensurada por indicadores como curtidas, compartilhamentos e número de seguidores. Tal lógica contribui para a consolidação de um ambiente no qual o reconhecimento social está diretamente associado à performance pública e à capacidade de atrair atenção.

Nesse contexto, casos de sucesso obtidos por meio da viralização de conteúdos são frequentemente apresentados como modelos amplamente acessíveis, produzindo uma percepção distorcida das reais condições de mobilidade social. O que tende a ser invisibilizado são os fatores estruturais que atravessam tais trajetórias, como capital econômico, redes de contato, estratégias de produção e circunstâncias específicas dificilmente replicáveis.

A difusão dessa lógica também alimenta a proliferação de discursos meritocráticos simplificados, frequentemente veiculados por meio de cursos, mentorias e programas de treinamento que prometem resultados rápidos. Tais discursos, ao enfatizarem exclusivamente o esforço individual, acabam por obscurecer as determinações sociais e econômicas que condicionam as possibilidades concretas de sucesso.

Essa problemática encontra ressonância na crítica elaborada por Guy Debord, ao conceber a sociedade contemporânea como uma “sociedade do espetáculo”, na qual a representação tende a substituir a experiência direta. No ambiente digital, essa lógica manifesta-se na centralidade da imagem, da aparência e da encenação de estilos de vida idealizados, que operam simultaneamente como objetos de desejo e fontes de frustração.

No plano existencial, a reflexão de Albert Camus acerca do mito de Sísifo oferece uma chave interpretativa relevante para a compreensão do trabalho enquanto experiência humana. Ao propor que o sentido da existência pode ser encontrado no próprio esforço, mesmo diante da repetição e da aparente ausência de finalidade, Camus desloca o trabalho do campo da punição para o da afirmação da condição humana.

Entretanto, no contexto contemporâneo, observa-se uma crescente dificuldade de atribuição de sentido a atividades que não produzem reconhecimento imediato ou visibilidade social. Essa dificuldade é intensificada por um ambiente marcado pela comparação constante e pela exposição contínua a padrões idealizados de sucesso.

Nesse sentido, a análise de Byung-Chul Han sobre a “sociedade do cansaço” contribui para compreender os impactos psíquicos dessa configuração. Segundo o autor, o sujeito contemporâneo encontra-se submetido a uma lógica de autoexploração, na qual a exigência de desempenho é internalizada, produzindo estados de exaustão, ansiedade e esgotamento emocional.

A discrepância entre as expectativas construídas no ambiente digital e as condições concretas de vida tende a gerar sentimentos de inadequação e fracasso. Quando tais experiências não encontram espaços adequados de elaboração simbólica, podem se manifestar por meio de mecanismos de externalização da responsabilidade, como a culpabilização de terceiros ou das estruturas sociais.

Assim, a relação da Geração Z com o trabalho deve ser compreendida como um fenômeno complexo, atravessado por transformações estruturais que envolvem não apenas o mundo econômico, mas também as formas de subjetivação contemporâneas. Nesse contexto, a promoção da saúde mental exige tanto intervenções no âmbito individual quanto a construção de narrativas culturais mais realistas acerca do tempo, do esforço e dos processos de desenvolvimento humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. [1, 2, 3]

BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. [1]

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

DAVENPORT, Thomas; BECK, John. The attention economy. Boston: Harvard Business School Press, 2001.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

EHRENBERG, Alain. A fadiga de ser si mesmo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

MANNHEIM, Karl. O problema das gerações. In:. Sociologia do conhecimento. São Paulo: Ática, 1982.