Revista Carreiras TI
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Jony Zatariano
Colunista

Jony Zatariano

Hobbies que Inspiram e Constroem

Jony Zatariano é um líder em marketing com sólida experiência internacional. Atuando como Head de Marketing em uma multinacional japonesa com mais de 130 anos de história, liderou a criação de centros globais de suporte e treinamento para a Furukawa, impulsionando a capacitação técnica em diversos países. Com dois MBAs – um em Estratégia de Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e outro em China Business & Economic Strategies for Managers pela The Chinese University of Hong Kong – alia conhecimento estratégico à aplicação prática em ambientes altamente desafiadores

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DNA do Líder Empreendedor X Inteligência Artificial:

Hobbies que inspiram e constroem

DNA do Líder Empreendedor X Inteligência Artificial:

Inovador! Resiliente! Humano!

Vivemos uma era em que a tecnologia não apenas acelera processos, mas redefine o valor do trabalho. A inteligência artificial deixou de ser uma tendência distante e passou a fazer parte do cotidiano corporativo, automatizando tarefas, antecipando padrões, produzindo conteúdo, analisando dados, apoiando decisões e redefinindo modelos de negócios. O que antes exigia semanas de planejamento e execução, agora pode ser feito em poucas horas, o que dependia de grandes equipes, hoje depende de ferramentas acessíveis e bem operadas, e a velocidade com que isso acontece é ao mesmo tempo, fascinante e assustadora.

E é justamente aí que nasce um dos maiores desafios do nosso tempo: acompanhar a eficiência da IA e suportar o aumento da pressão. A produtividade se torna padrão mínimo, a criatividade passa a ser exigência constante e a adaptabilidade vira requisito básico. Em meio a essa transformação, o papel do líder muda radicalmente. Ele deixa de ser apenas alguém que “comanda entregas” e se torna alguém que precisa sustentar uma cultura, proteger a saúde mental do time, criar clareza em meio ao excesso de informação e, ao mesmo tempo, manter competitividade em um mundo onde a única certeza é a da mudança.

Com isso surge a pergunta, como liderar pessoas quando o cenário muda o tempo todo? Como conduzir equipes em um mundo onde a tecnologia avança em velocidade exponencial e as emoções humanas continuam exigindo tempo, escuta e estabilidade? Como construir resultados sustentáveis sem adoecer pessoas?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem reforçado que a saúde mental já é um dos maiores desafios do mundo corporativo. De acordo com dados divulgados pela OMS, cerca de 15% dos adultos em idade ativa vivem com algum transtorno mental, especialmente depressão e ansiedade, e o impacto disso é gigantesco, e estima-se uma perda de aproximadamente 12 bilhões de dias úteis por ano, gerando um prejuízo global de cerca de US$ 1 trilhão em produtividade perdida. Esses números não são apenas estatísticas, eles representam profissionais competentes que perdem energia, motivação e sentido. São talentos que desistem de carreiras promissoras e empresas que gastam fortunas em tecnologia e processos, mas ignoram o fator mais decisivo para qualquer transformação, as pessoas.

A OMS também reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional ligado ao estresse que não foi adequadamente tratado e se tornou crônico, ou seja, não se trata apenas de cansaço, trata-se de um desgaste emocional que afeta diretamente a performance, a criatividade e a capacidade de relacionamento. E junto a tudo isso se soma a IA para aumentar o ritmo, elevar expectativas e fazer com que muitos profissionais se sintam constantemente avaliados e comparados, agravando mais ainda esse problema.

Nesse contexto, cresce a necessidade de um novo líder, um líder empreendedor. O líder empreendedor não é apenas aquele que abre empresas ou cria startups, ele é aquele que tem mentalidade de construção, alguém que age com senso de dono, mas sem arrogância. Um líder que entende de estratégia, mas não perde a sensibilidade humana, que sabe inovar, mas sem abandonar a disciplina, que sustenta resultados, mas sem saturar o time.

O líder empreendedor tem um DNA específico, sustentado por três pilares essenciais: ser inovador, resiliente e humano. Na prática, esses três elementos não são conceitos teóricos, são habilidades vivas que são exigidas diariamente. Eles determinam se um líder vai conduzir uma equipe rumo ao futuro ou apenas sobreviver à pressão do presente.

E o que é ser inovador? Ser inovador, antes de tudo, é ter coragem. Existe um mito no mundo corporativo, de que inovação é uma área ou um departamento. A realidade é que inovação não é função, inovação é cultura. E cultura não nasce de apresentações bonitas, a cultura nasce do comportamento diário das lideranças. Um líder inovador é aquele que cria um ambiente favorável para que ideias sejam testadas e aprimoradas, e nunca ridicularizadas ou bloqueadas pelo medo.

A inovação começa com perguntas incômodas, tais como, “Por que fazemos assim?”, “O que pode ser melhorado?”, “O que o cliente realmente quer?”, “O que pode nos tornar irrelevantes em dois anos?”. O líder inovador não se apaixona pelo passado, mesmo que ele tenha dado certo. Ele respeita a história, mas não se prende a ela. Ele entende que o mercado não é sentimental, o mercado é dinâmico, e a IA acelera esse dinamismo.

Com a inteligência artificial, inovar se tornou mais acessível. Ferramentas geram textos, imagens, insights e automações em poucos minutos. Mas isso não significa que inovação se tornou fácil, significa apenas que temos mais ferramentas e a barreira técnica diminuiu, e que o desafio agora está em outro patamar, ou seja, o desafio agora está na estratégia. Porque quando tudo pode ser feito mais rápido, a pergunta não é mais “como fazer?”, mas sim “o que vale a pena fazer?”, e essa decisão é totalmente humana.

A IA não escolhe prioridades com base em propósito, não enxerga cultura organizacional, não mede o impacto emocional de uma mudança dentro de uma equipe. A IA pode oferecer caminhos, mas não oferece sabedoria. O líder inovador é aquele que consegue olhar para o excesso de possibilidades e definir foco. O problema hoje não é mais a falta de informação, a informação existe em abundância, o problema agora é clareza. O líder inovador pega tecnologia e transforma em vantagem competitiva com propósito.

É importante compreender que inovar, não é apenas criar algo novo. Inovar também é melhorar o que já existe, de forma inteligente e constante, é transformar processos engessados em fluxos ágeis, é reduzir burocracias, é eliminar retrabalho, é construir soluções que facilitem a vida das pessoas. E isso não exige somente visão, mas também exige coragem de enfrentar resistências internas, porque todo processo inovador gera desconforto.

As mudanças tendem a ameaçar as zonas de conforto, questionar métodos antigos e expor fragilidades. Não existe transformação sem tensão, e não existe evolução sem desconforto. E é aqui que entra um segundo pilar do DNA do líder empreendedor, a resiliência.

Resiliência não é apenas “aguentar pressão”, essa visão é superficial. Resiliência não é romantizar sofrimento, nem incentivar uma cultura de exaustão. Resiliência verdadeira é a capacidade de manter clareza emocional em meio à instabilidade, é saber reagir com inteligência quando o cenário muda, é conseguir seguir adiante sem perder a identidade.

A resiliência se manifesta em atitudes, quando um projeto falha e o líder procura aprendizado e não culpados, quando um resultado não vem e o time se mantém unido, quando uma crise aparece e o líder não se esconde atrás do cargo, mas assume a responsabilidade. Resiliência é sustentação, consistência e maturidade.

Na era da IA, a resiliência é ainda mais exigida porque a velocidade do mercado aumenta com a frequência de mudanças. As equipes vivem sob prazos curtos. A concorrência parece sempre mais rápida, e muitos profissionais vivem com medo de serem substituídos, não necessariamente por uma pessoa, mas por uma tecnologia. Isso muda o clima emocional das empresas. E o líder resiliente precisa perceber isso antes que vire um problema maior.

Ele precisa entender que produtividade sem estabilidade emocional gera colapso. Não é sustentável exigir criatividade de um time que está esgotado, não é realista esperar inovação de uma equipe que trabalha com medo.

Quando a OMS afirma que depressão e ansiedade causam muitos dias de trabalho perdidos todos os anos, ela está mostrando que o impacto não é apenas humano, as empresas que ignoram saúde mental pagam com turnover, perda de talentos, baixa criatividade, clima tóxico e pagam até com reputação.

Resiliência corporativa, portanto, não é só uma habilidade individual. É uma construção coletiva. E cabe ao líder criar um ambiente em que o time consiga respirar, aprender, ajustar rota e continuar.

Mas resiliência sozinha não basta. Um líder pode ser inovador e resiliente, e ainda assim ser destrutivo. Pode entregar números, mas quebrar pessoas, pode gerar resultados no curto prazo, mas deixar um rastro de desgaste emocional. Por isso o terceiro pilar de um líder empreendedor é o mais importante e, talvez, o mais difícil, ser humano, e isso não significa ser permissivo, não é evitar conversas difíceis, não é reduzir cobrança, mas sim, entender que pessoas não são máquinas de entrega, é perceber que, por trás de cada profissional, existe uma vida acontecendo, existe uma história, uma família, um corpo cansado, uma mente sobrecarregada e, muitas vezes, um medo que não é verbalizado.

A liderança exige presença, exige escuta ativa, exige sensibilidade para ler o ambiente, exige coragem para tratar assuntos difíceis, exige empatia. Um líder humano sabe cobrar, e ao mesmo tempo sabe proteger o seu time, sabe direcionar e sabe apoiar. Sabe exigir resultado, mas também sabe criar sentido.

Na era da IA, essa conexão humana se torna ainda importante, porque quanto mais automatizado o trabalho se torna, mais o diferencial passa a ser a confiança, a cultura, a inspiração, a criatividade, a ética, os valores e a conexão humana.

ATENÇÃO:

- A IA pode criar relatórios, mas não cria lealdade.

- A IA pode prever tendências, mas não constrói pertencimento.

- A IA pode otimizar processos, mas não cura esgotamento emocional.

- A IA pode aumentar performance, mas não cria propósito.

Por isso, o líder precisa compreender que seu trabalho não é apenas “fazer o time produzir”, seu trabalho é fazer o time acreditar. Acreditar no caminho, na visão, na cultura, na construção. Muitas pessoas não pedem demissão de empresas, elas pedem demissão de ambientes, de líderes, de culturas tóxicas, pedem demissão por falta de sentido.

Criamos a IA para ganhar velocidade, e agora vivemos com medo de não conseguir acompanhar o que criamos. Vivemos um paradoxo brutal, onde pessoas treinam máquinas para pensar mais rápido, e depois competem com elas para provar que ainda são necessárias. A tecnologia acelera, mas também gera insegurança, ansiedade e a sensação de substituição constante. A IA entrega respostas em segundos, mas não conduz projetos, não sustenta cultura e não assume consequências.

Ao longo da minha trajetória como Head de Marketing em uma multinacional japonesa, percebi a importância de uma liderança empreendedora, que me exige equilíbrio constante.

E foi buscando esse equilíbrio, entre performance e humanidade, estratégia e emoção, velocidade e clareza, que encontrei no motociclismo um dos maiores treinamentos pessoais para minha vida profissional. A estrada me ensinou que não posso me distrair, que quando estou sobre duas rodas, não existe “mais ou menos atento”, ou eu estou presente ou eu me coloco em risco. E isso tem uma conexão direta com o que a liderança exige de nós hoje.

O mundo corporativo vive repleto de distrações, entre elas, reuniões sem fim, notificações constantes, pressões simultâneas, mudanças de rota, excesso de informação. Muitas vezes passamos o dia inteiro ocupados e, ainda assim, terminamos o dia com a sensação de que não pensamos estrategicamente, que estamos apenas reagindo, apenas apagando incêndios.

Uma das maiores metáforas que o motociclismo me ensinou sobre liderança, é que não existe reação atrasada. Muitas empresas ficam fixadas no problema, na crise, na concorrência, no medo do futuro. Mas o líder empreendedor precisa fixar no destino. Ele precisa conduzir o time para a direção correta, mesmo quando o ambiente está instável.

Na estrada, existe um respeito entre motociclistas, existe uma consciência de vulnerabilidade, um entendimento de que ninguém é invencível. Isso lembra algo que muitos líderes esquecem: cargo não protege ninguém do desgaste emocional, não impede ansiedade, não impede burnout e o sucesso não impede depressão. Sustentabilidade humana é tão importante quanto sustentabilidade financeira.

O DNA do líder empreendedor, portanto, não é apenas uma combinação bonita de palavras, mas sim um conjunto de competências que definem o futuro das organizações, onde inovar é enxergar além, resiliência é sustentar o caminho, e humanidade é preservar pessoas.

E é esse tripé que precisa ser fortalecido na era da inteligência artificial, porque a IA pode mudar o mercado, mas ela não muda a essência do que move uma empresa: as pessoas comprometidas com um propósito.

No fim, liderar pessoas em tempos de IA é como pilotar em uma estrada desconhecida: você precisa de visão, equilíbrio e coragem para seguir, mesmo quando você não tem o controle total do cenário. A tecnologia pode sugerir vários caminhos, mas ainda é você quem segura o guidão.

E talvez a maior verdade sobre liderança seja essa: o futuro será cada vez mais digital, mas a liderança continuará sendo profundamente humana.

Imagem 1 do artigo: Mini currículo Jony Zatariano
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