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Psicólogo Wislen Paiva
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Psicólogo Wislen Paiva

Aprendiz de Psicologia

(Escritor, poeta, compositor, músico e discente de Psicologia. Especializando em musicoterapia).

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OS VILÕES, VOCÊ E SUA SAÚDE MENTAL EM TEMPOS LÍQUIDOS

OS VILÕES, VOCÊ E SUA SAÚDE MENTAL EM TEMPOS LÍQUIDOS

POR WISLEN PAIVA VASCONCELOS CRP-11/19961 PSICÓLOGO CLÍNICO, PSICANALÍSTA, MÚSICO, COMPOSITOR, ESCRITOR, COLUNISTA E GLEICE SOARES MAGALHÃES FORMANDA EM PSICOLOGIA PELO UNINTA CAMPUS ITAPIPOCA-CE

Quando eu era criança e assistia filmes, desenhos animados, novelas, series, ou até lia gibis, sempre torcia pelos mocinhos, os vilões sempre eram vilões, e sempre se davam mal, claro que sempre dava a lógica, o óbvio, ninguém questionava nem ao menos pensava na possibilidade dos bandidos, dos facínoras, de alguém do lado malvado da história sair vencendo no final, seria muito inverossímil, fora da realidade, digo, com toda certeza que seria até impossível se pensar que algum dia o mal venceria alguma coisa, que teriam um final feliz, e apenas eles, os malvadões, que praticavam tais atos, ousariam acreditar que chegariam ao final da história triunfantes, que se dariam bem, ou que seriam vencedores.

Pelo contrário, até mesmo aqueles que praticavam o mal já sabiam que, no fim, teriam um destino trágico. Ainda hoje, no mundo do crime, prevalece a máxima de que o bandido sabe o seu final, que é a cadeia ou o caixão. Essa máxima, absorvida ainda na infância e sedimentada ao longo da adolescência, permaneceu por décadas alojada no inconsciente coletivo como uma espécie de bússola moral. Ela não apenas orientava comportamentos, mas delimitava fronteiras éticas claras, formando, em sua maioria, indivíduos honestos, corretos e socialmente responsáveis. A maldade não era um valor, tampouco um atalho; era um desvio. Viver em sociedade significava preservar a própria reputação, honrar a palavra dada e merecer a confiança alheia.

Você pode até vir a perguntar, até com uma certa ironia, se naquele tempo não existiam pessoas más/cruéis, psicopatas, facínoras, marginais? Evidentemente que lhes digo, claro que sim, claro que existiam. Contudo, eram figuras periféricas, quase invisíveis no corpo social, com raras exceções que só confirmavam a regra. Talvez não ultrapassassem 0,010% da população. O peso do julgamento coletivo funcionava como um tribunal silencioso e eficaz: ninguém queria carregar o estigma de ser alguém que não inspirava crédito, respeito ou segurança.

Estou falando aqui das décadas de 70, 80 e 90, um período em que os limites eram compreendidos antes mesmo de serem transgredidos. A chegada dos anos 2000 não representou apenas uma mudança de calendário, mas uma inflexão civilizatória. O telefone ainda tinha fio, a internet era um rumor distante e os computadores, notebooks e celulares habitavam apenas o território da ficção, algo como nos desenhos animados dos “Jetsons”, ou em séries como “Perdidos no Espaço” e até em obras literárias que chegaram as telas do cinema tais como “2001: Uma Odisseia no Espaço” e “Westworld: Onde Ninguém Tem Alma”. Paradoxalmente, era um mundo com menos máquinas e mais consciência, menos conexões virtuais e mais responsabilidade moral, onde o medo maior não era a exclusão digital, mas a falência do caráter.

Porém, desde os primórdios da narrativa humana, os vilões desempenham um papel fundamental em nossas histórias, vilões como o “Coringa” do Batman e ou “Hannibal Lecter” personagem do best-seller “O Silêncio dos Inocentes” de Thomas Harris que posteriormente chegou as telas do cinema consagrando o ator Anthony Hopkins que desempenhou magistralmente no papel do personagem principal do filme, que por sinal era o vilão da história, esses personagens não apenas nos entretêm, mas também moldam profundamente nossa compreensão sobre saúde mental e transtornos psicológicos.

A literatura e o cinema há muito tempo associam a vilania à doença mental. Essa conexão não é acidental, mas sim uma construção narrativa que serve a propósitos específicos: criar personagens imprevisíveis, implementar ações extremas e, muitas vezes, simplificar motivações complexas. O vilão "louco" e “psicopata” tornou-se tão comum que raramente questionamos suas implicações.

Os vilões ficcionais frequentemente apresentam características exageradas de transtornos mentais reais tais como: na esquizofrenia, que é uma realidade onde é retratada com suas múltiplas personalidades violentas, já o Transtorno Bipolar é exibido apenas em seus extremos mais dramáticos, e a Psicopatia é universalmente associada à violência serial, no caso da Depressão, ela é romantizada, ou completamente ignorada em favor de manifestações mais "cinematográficas".

A representação consistente de pessoas com transtornos mentais, então como os vilões criam e reforçam os estigmas profundos na sociedade em que convivem. Pesquisas mostram que a exposição dessas representações pode aumentar o medo em relação a pessoas com diagnósticos de saúde mental, ou reduzir a empatia e a compreensão sobre essas condições, além de desencorajar a busca por ajuda profissional, sendo que dessa forma, tende-se a perpetuar a discriminação no ambiente de trabalho e social.

Ao contrário do que a ficção sugere, pessoas com transtornos mentais são muito mais propensas a serem vítimas de violência, as estatísticas mostram que apenas de 3 a 5% dos crimes violentos são cometidos por pessoas com doenças mentais graves, enquanto elas, as pessoas que tem transtornos têm 10 vezes mais chances de serem vítimas de crimes violentos do que as pessoas que não tem transtornos. Quando consumimos repetidamente conteúdo que associa doença mental à vilania, internalizamos esses preconceitos de forma inconsciente. Isso pode afetar: na autoestima de pessoas que vivem com transtornos mentais, seus relacionamentos interpessoais e dinâmicas familiares, e as decisões de tratamento e busca por ajuda profissional acabam por serem sabotadas e ou adiadas, ficando em stand by, e por consequência as políticas públicas acabam por se isentar do compromisso com a saúde mental e deixam de fazer o necessário com os recursos que tem para prevenir e acolher as pessoas que precisam de tratamento na sua saúde mental.

Paradoxalmente, alguns vilões carismáticos podem levar à identificação problemática, especialmente entre jovens vulneráveis. Personagens como o Coringa podem ser romantizados, levando a uma compreensão distorcida sobre transtornos mentais e suas manifestações. O Coringa, é um dos vilões mais icônicos da cultura pop, símbolo de Caos Mental, exemplifica perfeitamente a representação da saúde mental. Suas diferentes interpretações ao longo dos anos mostram como a sociedade projeta seus medos sobre doença mental em personagens fictícios, vide que o ator Heath Ledger que ao interpretar o personagem acabou por não conseguir sair do personagem e e mergulhou em suas dores de uma tal maneira que acabou por tirar a própria vida, e tem o caso da magistral interpretação de Joaquim Phoenix, a mais aclamada e considerada a mais perfeita interpretação pro personagem em todos os tempos, num filme onde o Coringa é o personagem principal e não o Batman.

Já a representação de Hannibal Lecter criou um arquétipo do "psicopata genial" que distorce completamente a realidade dos transtornos de personalidade, criando expectativas irreais e medos infundados, O Psicopata Intelectual. Outro filme que trás um personagem icônico, complexo e cultuado até hoje, foi Psicose onde seu personagem principal Norman Bates trouxe a tona diversos tipos de traumas que uma pessoa pode vir a ter e por causa deles cometer atrocidades, num filme de Alfred Hitchcock em preto e branco que é cultuado por gerações e gerações de fãs, o personagem distribuiu conexões problemáticas entre traumas infantis, transtornos dissociativos e comportamento violento, influenciando décadas de representações semelhantes.

As Organizações de saúde mental têm diretrizes desenvolvidas para representação mais responsável e dessa forma, evitar estereótipos simplistas e ambiciosos, felizmente, algumas produções recentes têm tentado abordar a saúde mental de forma mais nuançada e responsável, mostrando personagens complexos que lidam com desafios mentais sem serem vilões ou vítimas, e sim pessoas comuns, que também podem e tem transtornos mentais.

É importante considerar quando o consumo de mídia está afetando níveis cada vez maiores de nossa percepção ou bem-estar mental, estabelecendo limites de segurança e buscando conteúdo mais equilibrado. Os profissionais da área precisam estar cientes de como a influência da mídia podem afetar as percepções de seus pacientes e da sociedade, trabalhando ativamente para desmistificar conceitos errôneos e educar sobre a realidade dos transtornos mentais, promovendo, assim representações mais precisas para apoiar iniciativas de conscientização.

Portanto, a relação entre vilões ficcionais e nossa percepção da saúde mental é complexa e profundamente enraizada em nossa cultura. Embora essas representações possam ter propósitos narrativos, é crucial considerar seu impacto real na vida de milhões de pessoas que vivem com transtornos mentais. Como sociedade, temos a responsabilidade de consumir mídia de forma crítica, apoiar representações mais precisas e trabalhar para desconstruir os estigmas que essas representações perpetuam. Somente através da educação, empatia e representação responsável poderemos criar um ambiente onde a saúde mental seja detalhada com a complexidade e nuance que merece.

Pois, a ficção continuará a ser uma parte importante de nossas vidas, mas podemos exigir que ela reflita a humanidade completa das pessoas que vivem com desafios de saúde mental, em vez de reduzi-las a tropos específicos e estereótipos simplistas. O futuro da representação da saúde mental na mídia depende de nossa disposição coletiva de questionar, educar e transformar as narrativas que contamos sobre nós mesmos e sobre os outros.

Contudo percebe-se que a geração Z atualmente tem buscado ingressar no mundo do crime por estarem cada vez mais imersos nas redes sociais e nelas cultuando influenciadores e seus mundos de paisagens e retratos perfeitos, mas que por trás de tudo aquilo estão imersos em um mundo marginal que produz e financia a vida de luxo e ostentação deles, mas que gourmetizam de uma certa forma o erro, fazendo-os parecer o certo, e ou quando podem ironizam e deixam transparecer que o grau de impunidade aos quais são favorecidos é para todos que aceitarem participar daquele estilo de vida ao qual eles estão.

É possível notar que estes marginais atuais, não são como outrora, apenas pessoas das classes menos favorecidas, carentes, e que por incrível que pareça são pessoas estudadas, profissionais que simplesmente mudaram a sua maneira de ver o mundo, que são pessoas que nasceram em berços mais abastados, mas que viraram vilões da própria história Essa tal goumertização dos crimes e normalização de que vale a pena desfrutar, do que é proporcionado, fez-se criar uma nova máxima entre eles, que é, “só é preso quem não tem dinheiro pra ser solto”.

Enfim, honestidade deixou de ser obrigação e virou qualidade de poucos, logo uma pessoa honesta é zoada por praticar aquilo que acredita, o caráter humano é algo espelhado, desenvolvido pelos neurônios espelhos que temos, o espelhamento é comum na convivência de todos, quem tem bons exemplos aprende o bom, quem tem maus exemplos ou nenhum exemplo vai par o lado mais fácil de seguir.

Não se muda caráter, mas se molda tendências, a terapia pode ajudar muito nesta modelagem, procure fazer terapia o quanto antes.