Psicólogo Wislen Paiva
Aprendiz de Psicologia(Escritor, poeta, compositor, músico e discente de Psicologia. Especializando em musicoterapia).
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SAÚDE MENTAL DAS MÃES ATIPICAS
Por Wislen Paiva Vasconcelos CRP – 11/19961 e Gleice Soares Magalhães
O Transtorno do Espectro Autista – TEA, é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, interação social e o comportamento do indivíduo. O diagnóstico geralmente é feito ainda na infância, e deve ser analisado por uma equipe multidisciplinar, geralmente composta por: Médico (que pode ser Psiquiatra, Neurologista ou Pediatra) Nutricionista, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Fisioterapeuta, Pedagogo e Terapeuta Ocupacional.
Segundo o IPGS – Instituto de Pesquisas, Ensino e Gestão de Saúde, o que é o Autismo? Bem, o Autismo ou Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) são os termos gerais para um grupo de distúrbios complexos de desenvolvimento do cérebro. Esses distúrbios são caracterizados, em três níveis de suporte variado por diferenças na forma como uma pessoa interage com as outras pessoas ou como ela comunica, usando linguagem ou gestos com pouco contato visual ou somente apontando. Pessoas com autismo tendem a apresentar comportamentos esteriotipados e/ou rigidez cognitiva e dessa forma podem se comportar de maneira incomum, pois precisam de previsibilidade para suas atividades, evitando assim situações de frustração. No sistema oficial de classificação de diagnóstico psiquiátrico nos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição (DSM-5TR), usa o termo Transtorno do Espectro do Autismo para definir essa condição, e usando como critérios de investigação para o diagnóstico: Déficits persistentes na comunicação social e interação social, que inclui dificuldades em reciprocidade social e emocional, comunicação verbal e não verbal e desenvolvimento cognitivo. Além de Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.
Diante disso, após o diagnóstico, a responsabilidade do cuidado diário com o filho que possui o Transtorno, torna-se desafiador para a família, especialmente para a cuidadora (o), que geralmente a função é dada as mães, elas logo assumem a responsabilidade, geralmente sozinhas, e deixam de viver as suas vidas, para viverem em função do cuidado diário do filho, na grande maioria das vezes, o pai abandona a família, abstendo-se das obrigações afetivas e muitas vezes também financeiras.
Diante dessa demanda de cuidado diário, é que leva muitas vezes ao adoecimento (Santos, 2021). Principalmente por causa do estresse gerado pela mudança de rotina da mãe, associado ao excesso de cuidado com o outro, sua dedicação e preocupação, tudo isso somado ao estigma social em torno do autismo e a responsabilização quase exclusiva, vai ocasionar no abandono dos projetos pessoais e profissionais dessa mulher/mãe.
Logo, esse tema exige visibilidade acadêmica, escuta social e ações institucionais concretas que valorize um cuidado a quem cuida. Pois, os altos níveis de estresse, frustração, depressão e ansiedade são recorrentes entre mães cuidadoras, especialmente em contextos de baixa renda e escolaridade (Franco, 2015; Castro et al., 2022). No Brasil, o assunto mães que cuidam de pessoas com TEA sem rede de apoio é um fenômeno complexo e multifacetado, enraizado tanto nas exigências inerentes ao cuidado de uma criança atípica, quanto nas particularidades socioeconômicas e culturais do país.
De acordo com Silva (2021), as sobrecargas que atravessam as mães atípicas, se não for corretamente gerenciadas, podem se desdobrar em uma série de complicações, gerando uma potencialização ou inicialização de alguns transtornos muito comuns, tais como: Ansiedade, Síndrome de Burnout, Síndrome do Pânico, Fobia Social e Depressão. Pois, a sobrecarga do cuidado e a exaustão materna em mães de pessoas com TEA no Brasil, refletem um cenário de desafios complexos e interligados.
Já que, após o diagnóstico, até mesmo por uma questão de gênero, a responsabilidade de cuidados diários com o filho, fica apenas nas costas da mãe. Na maioria das vezes elas são mães solo, abandonadas pelos genitores e tendo que viver todo o estresse diário de cuidar do filho sozinhas, além dos aspectos práticos dos cuidados com a própria casa, rotinas intensivas de terapias e abandono da profissão, amigos, rotina social. Dessa forma a mãe atípica, como cuidadora vai ficando exausta e o cansaço fica visível, mas ainda assim elas têm que continuar e sem apoio não podem simplesmente desistir.
No entanto, a desarticulação entre saúde, educação e assistência social contribui para a invisibilização destas mulheres e para o agravamento da exaustão (Rodrigues, 2021). Isso somado ao estigma social em torno do autismo e a responsabilização quase exclusiva da mãe. Misquiatti et al., (2015), produziram uma pesquisa com foco na saúde mental de mães de autistas, os autores buscaram avaliar a sobrecarga de familiares cuidadores, a partir da perspectiva dos próprios cuidadores. Os resultados verificaram que as consequências e limitações na vida pessoal do cuidador correspondem a um conjunto de situações, as quais podem provocar alterações e impacto na vida pessoal, como a diminuição de tempo disponível para si, saúde afetada, e a necessidade de alterar o conjunto de hábitos, para assim, poder dar respostas às necessidades do familiar autista.
“O tema exige ações institucionais concretas que valorizem o cuidado de quem cuida. Pois, os altos níveis de estresse, depressão e ansiedade são recorrentes entre mães cuidadoras, especialmente em contextos de baixa renda e escolaridade (Franco, 2015; Castro et al., 2022).”
No cenário brasileiro, o cuidado de pessoas com TEA recai predominantemente sobre as mães, perpetuando um modelo tradicional de gênero que centraliza nelas a responsabilidade integral pelo bem-estar dos filhos. A ausência de redes de apoio consistentes, a precariedade dos serviços públicos de saúde e educação especializada, e a negligência por parte das políticas públicas que contribuem significativamente para o processo de sobrecarga e exaustão.
No entanto, no campo acadêmico, embora os estudos sobre TEA tenham avançado nas últimas décadas, ainda são escassas as investigações sistemáticas que abordam de forma profunda e comparativa os efeitos psicossociais da maternidade atípica no Brasil. Pesquisas realizadas entre 2015 e 2025 apontam elevados níveis de estresse, sintomas depressivos e impacto emocional por parte das mães cuidadoras.
As mães brasileiras, que enfrentam, de maneira silenciosa, o peso do cuidado com o outro, que muitas vezes, é sustentado pelo vínculo afetivo com o filho coexistindo apenas com sentimentos de esgotamento, frustração e solidão. Assim, é necessário compreender essa exaustão não como sinal de fraqueza, mas como uma resposta legítima às demandas desiguais impostas pelo contexto social que servem para construir práticas mais humanas e políticas públicas mais efetivas.
O problema da sobrecarga materna no cuidado de pessoas com TEA no Brasil reflete uma estrutura social que delega quase exclusivamente às mulheres o papel de cuidadoras principais. Neste contexto, sem uma divisão equitativa de responsabilidades intrafamiliares, e com a precariedade dos serviços de saúde mental, com ausência de políticas públicas eficazes e educação inclusiva, além da escassez de rede de apoio comunitária, tudo isso resultam em um cenário de negligência institucional.
Essa realidade das desigualdades sociais e de gênero, compromete a qualidade de vida dessas mães. Pois, elas enfrentam o luto pelo filho idealizado, além da sobrecarga de tarefas cotidianas e o abandono de projetos de vida, carreira ou lazer. Dessa forma, há uma tendência à auto anulação, marcada por sentimento de culpa, solidão, frustração e impotência, o cansaço se transforma em esgotamento emocional, muitas vezes invisível até para elas mesmas, por conta do estigma que envolve a maternidade.
Assim, surge o isolamento social, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho porque não tem com quem deixar o filho e a sobreposição de papéis sociais e domésticos que fazem com que muitas mães vivam um ciclo de cansaço crônico e invisível. No entanto, do ponto de vista acadêmico, embora haja um crescimento no interesse por estudos sobre TEA e maternidade atípica, ainda existe uma lacuna significativa no aprofundamento metodológico e na padronização das análises sobre a exaustão materna.
A maioria das pesquisas concentra-se em estudos qualitativos e relatos de caso, com pouca representatividade geográfica ou diversidade amostral. Além disso, há carência de investigações que correlacionem diretamente o impacto do cuidado materno com os indicadores de saúde mental, sócio econômicos e institucionais.
Neste contexto, a sobrecarga materna não é apenas uma questão privada, mas um problema social que reflete a desigualdade de gênero, a desvalorização do trabalho do cuidado e a exclusão das mulheres cuidadoras do acesso a direitos básicos como saúde, educação e trabalho. Compreender e evidenciar essa sobrecarga é fundamental para sensibilizar gestores públicos e promover políticas que garantam suporte, inclusão e cidadania a essas mulheres.
Apelamos ao poder público, um olhar mais assertivo para o cuidado das mães atípicas, viabilizando em suas políticas públicas, com ética e compromisso, um olhar voltado mais empático para as histórias dessas mães, que vivem uma maternidade marcada pelo amor incondicional, mas também por altos níveis de cansaço físico e emocional. O cotidiano dessas mulheres é muitas vezes invisibilizado, e suas dores são minimizadas ou romantizadas pela sociedade.
Mais do que compreender o problema, trata-se de valorizar as vozes e vivências dessas mulheres, promovendo uma escuta sensível e fundamentada. Mapear estratégias de enfrentamento e os recursos de apoio disponíveis e/ou utilizados por essas mães, conforme as suas necessidades imediatas. Analisando as lacunas sociais, ouvindo as suas necessidades para sugerir e/ou recomendar na prática clínica, e para a formulação de políticas públicas que visem o suporte e o bem-estar de mães de crianças atípicas.
O Governo Federal por meio do INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social, disponibiliza a criança com TEA o auxílio do BPC – Benefício de Proteção Continuada, pelo LOAS - Lei Orgânica da Assistência Social. Sendo uma ajuda substancial para a família, mas este auxílio é só para o portador do transtorno, a cuidadora continua tendo que prover a si mesma e a casa, não tendo direito algum para nenhum tipo de auxílio, e com isso devido também não ter disponível para toda a demanda existente nas UBS – Unidade Básica de Saúde psicólogos, imagina ainda para realizar o atendimento necessário para as mães atípicas.
Com isso somente algumas poucas mães atípicas que dispõem de condições financeiras para promover este cuidado consigo mesma na rede particular. Enquanto as demais ficam segurando suas dores e queixas sem ajuda nenhuma, adoecendo emocionalmente de uma forma muito rápida.
Ao poder público pedimos uma ação mais assertiva e rápida, para que estas mães não adoeçam de uma maneira que as impossibilitem de continuar dando a assistência aos filhos.
REFERÊNCIAS:
IGPS, Ensino Superior Em Saúde. Porto Alegre - Rs. 2022. Equipe Multidisciplinar No Autismo: Entenda O Papel De Cada Profissional. www.ipgs.com.br Disponível em: https://www.ipgs.com.br/equipe-multidisciplinar-no-autismo-entenda-o-papel-de-cada-profissional/ Acesso em 02/07/2025 as 10h
Constantinides, Teresinha Cid; Pinto, Aline Sousa. 2019. Revisão Integrativa Sobre A Vivência De Mãe De Crianças Com Transtorno De Espectro Autista. Revista Psicologia E Saúde. www.pssaucdb.emnuvens.com.br Disponível em: https://pssaucdb.emnuvens.com.br/pssa/article/view/799
Scimago Institutes Rankings. Sobrecarga Familiar E Crianças Com Transtornos Do Espectro Do Autismo: Perspectivas Dos Cuidadores. www.scielo.br Campinas, São Paulo. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rcefac/a/3pfYytcbXMZxHhHFNFpwWHP/?lang=pt
Scimago Institutes Rankings. A Vivencia Da Maternidade De Mães De Crianças Com Autismo. www.scielo.br Maringá, Paraná. 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pe/a/QypM8WrpBcGX9LnwfvgqWpK/
Scimago Institutes Rankings. Autismo Infantil: Impactos Do Diagnóstico E Repercussões Nas Relações Familiares. www.scielo.br Porto Alegre, Rio Grande Do Sul. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rgenf/a/Qp39NxcyXWj6N6DfdWWDDrR