Psicólogo Wislen Paiva
Aprendiz de Psicologia(Escritor, poeta, compositor, músico e discente de Psicologia. Especializando em musicoterapia).
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Deixar Ir e Recomeçar
Por Wislen Paiva Vasconcelos CRP 11/19961
Psicólogo Clínico – Psicanalista Freudiano
Muitas vezes nos mantemos em uma relação adoecedora por puro comodismo, apego e medo de ter que recomeçar de novo, e o tempo vai passando, o ambiente e a relação só piora, ficando insustentável, numa hora quando menos se percebe, acabou de vez, ai, viver o luto de um termino é terrivelmente difícil, muito mais do que o luto por um ente querido que faleceu, o luto de uma pessoa viva, é bem mais complexo. Afinal, a pessoa ainda está viva, só saiu da relação e deixou memórias, frustrações, não é algo irremediável como a morte.
Cada pessoa vive seu luto de uma maneira única e singular, claro que quem vive o luto de uma pessoa viva, se sente desprezado, rejeitado, abandonado, frustrado e fica sem entender nada, procurando justificativas, erros, com suas vulnerabilidades potencializadas, e é atingido sem pena nem dó pela tristeza, solidão, desesperança, desânimo, pensamentos intrusos, ruminação de pensamentos, o sofrimento é visível e imensurável para quem vive, e perceber que a outra pessoa, vive de boa, que virou a página rapidamente, passa a ser uma tortura.
“Quando pensamos em luto, automaticamente ligamos essa palavra com a superação de uma pessoa que morreu. Algumas vezes, associamos o luto, também, à perda de seres queridos, como pets de estimação. Contudo, é possível vivenciar o luto, mesmo que uma pessoa esteja viva. Isso acontece quando há o sentimento de perda daquela pessoa na sua vida”. (Lais de Melo, 2022)
Revisitar as memorias pós término é angustiante, o sentimento de perda fica evidente, mas óbvio que já existia sinais do desgaste, da falta de sintonia, da conexão que não fluía mais, e a separação foi sim, para ambos o caminho mais acertado.
Uma pena que, em toda relação um se preparou para sair e o outro foi pego de surpresa, ficou sem entender nada, mas superar qualquer traço de dependência afetiva e ou carência afetiva é um passo dolorido, mas necessário, e essa pessoa que ficou tem que aprender a lidar com isso.
E ter que aprender a viver sem a pessoa, é a única chance de seguir em frente, as noites serão duras e cruéis, os dias tediosos, mas o tempo passa para tudo e aos poucos você se reestabelece, afinal, uma reconciliação geralmente não tem efeito algum, só mais desgaste, e o ideal é entregar sua ausência e deixar a pessoa ir, mas quando digo deixar ir, é ficar mesmo sabendo que ela ainda está presente na sua mente, mas fisicamente ela já foi, e não volta mais.
As pessoas mais chegadas, não vão lhe entender, e mesmo que algumas te escutem, elas não podem fazer nada, e com o tempo fica até chato e repetitivo, única saída é focar em você, mude sua rotina, tente fazer o que sempre lhe deu prazer, faça exercícios, leia, estude, se cerque de amigos e da família, a rede de apoio é fundamental no processo, saia do ambiente e entregue sua ausência, contato zero total e pare de tocar no mesmo assunto.
Já que tudo que a sua mente te trás, não está realmente acontecendo, e não pense como seria a sua vida com a pessoa ainda a seu lado, ela não está mais, viva seu presente, se agarre na sua fé espiritual e em você, trace novos planos, não se coloque de lado, muito menos por quem já foi e não vai voltar, a sua felicidade só depende de você, pessoas vão e vem na nossa vida, pare e pense, quando você terminou seu primeiro namoro na adolescência, parecia que você ia morrer, não foi? No entanto você está vivo. Tem pessoas que perderam pai e ou mãe, filho (a) ou esposa (o) e mesmo sendo um luto de morte, sobreviveram.
“O luto de pessoas vivas, é uma dor absurda ser viúva de marido ou esposa vivo (a). Todo amor e respeito vira mágoa” (Helder Lukelo, 2022)
Nem um tipo de luto é uma doença, mas ele pode adoecer você, necessário reorganizar a vida, fazer as coisas que gostava, vivenciar este luto que é uma coisa que faz parte da nossa existência, onde a fase de ausência do outro é percebida, a partir daí usando o seu próprio senso, você notará a normalidade de tudo e achará uma maneira de lidar com isso.
É um processo muitas vezes cruel dentro da perspectiva de rompimento de uma vida a dois, ou de uma amizade antiga que se desfez, é fato que achar que nada mais faz sentido, que nada tem valor, que não é possível viver sem a pessoa, é porque isso é causado pelo apego, pela dependência emocional desenvolvida pela sua carência afetiva, dentro de um tempo, com a sua reestruturação você irá perceber que sepultou a pessoa que era nociva, que não edificava, apenas isso.
O luto pode ser difícil emocionalmente, mas será libertador assim que seu foco em você e em sua vida for renovado, hoje com a pressa do mundo atual, onde se termina por mensagem de wattsapp, e logo se bloqueia o outro para não ser stalkeado, onde o egoísmo escancara a sua lealdade e caráter, as pessoas hoje só querem normalizar novas práticas.
Segundo Zigmunt Bauman, as relações interpessoais que se desenvolveram no pós-modernidade, são caracterizadas pela falta de solidez, com uma tendência a ser cada vez mais fulgazes, superficiais, etéreas e com menor grau de compromisso possível.
Embora em seu livro Amores Liquidos, Bauman usa sua tese em um construto das relações afetivas, amor romântico, marido e mulher, ele também associa a liquidez do amor ao próximo e falta de empatia.
Segundo Byung-Chul Han em seu livro Sociedade do Cansaço, vivemos um tempo onde a enfermidade migrou de bacteriológica ou viral para ser neuronal, marcada por doenças como a depressão.
Muitos que vivem o luto caem na depressão, que pode descambar para anedonia, o estágio mais grave da depressão, segundo Alain Ehrenberg, a depressão é uma economia de si mesmo, com uma expressão patológica do fracasso e nesta carência de vínculos e violência sistêmica que são inerentes, a sociedade do desempenho, passa a produzir os chamados infartos psíquicos.
A terapia pode lhe ajudar a se equilibrar, procure um psicólogo, não deixe as coisas irem por um caminho mais difícil que pode culminar em uma depressão, ou até em coisas piores e sem volta, como ideações suicidas. Talvez seja preciso de medicação também, indico procurar o CAPS – Centro de Apoio Psico Social, um psiquiatra também vai ajudar no processo, não demore a procurar por ajuda.
REFERÊNCIAS
Melo, Lais De. Luto de Pessoas Vivas: O Que É E Como Lidar Com Isso. www.brasil123.com.br 2022. Brasil. Disponível em: https://brasil123.com.br/luto-de-pessoas-vivas-o-que-e-e-como-lidar-com-ele/ acesso em 28/03/2025
Lukelo, Helder. O Que É O Luto Afetivo De Pessoas Vivas. www.helderlukelo.com.br 2022. Brasil. Disponível em: https://www.helderlukelo.com.br/2022/08/O-que-e-luto-afetivo-de-pessoas-vivas.html acesso em 28/03/2025
Han, Byung-Chan. Sociedade do Cansaço. Editora Vozes. Brasil. 2019